Ttulo: A Noiva da Primavera.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1986.
Ttulo Original: A Victory for Love.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.


Barbara CARtlAND
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo

A noiva da primavera

Da tela empoeirada, oculta no castelo de Lydbrooke,
os olhos sorridentes do visconde Ivan Brooke
contemplavam Farica. Atnita, ela reconheceu o
cavaleiro que havia encontrado no bosque, o olhar
nostlgico perdido no castelo...
Mas, se aquele era o legtimo herdeiro do ttulo, havia um impostor em
seu lugar: Fergus, o atual conde de Lydbrooke, o homem com quem
pretendiam cas-la!
Mais do que nunca, Farica decidiu que jamais daria
sua mo ao odioso e usurpador conde Fergus.

BARBARA CARTlAND
A noiva da primavera

BARBARA CARTLAND
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.

Ttulo original: A Victory for Love
Copyright: (c) Barbara Cartland
Traduo: Maria de Lourdes Botelho
Copyright para a lngua portuguesa: 1986 EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Ltda. e impressa
na Editora Parma Ltda.
Nova Cultural - Caixa Postal 2372 - So Paulo



NOTA DA AUTORA

Uma das grandes desgraas da guerra travada na Espanha e na Frana, pelos
exrcitos de Wellington contra Napoleo Bonaparte, foram os salteadores 
que roubavam tudo o que podiam dos soldados mortos, feridos ou 
agonizantes.
Dessa forma, tornava-se impossvel a identificao dos corpos, quando 
eram finalmente encontrados pelos membros do regimento, pelas irms de 
caridade ou por pessoas misericordiosas.
Essa horrvel pilhagem perdurou at a poca de meu av, que se lembrava 
de ter visto, em 1870, centenas de cartas espalhadas no campo de batalha, 
que haviam sido levadas pelo vento, depois que tudo o que os soldados 
possuam tinha sido covardemente saqueado.

CAPTULO I
1817

Farica caminhava silenciosamente pela floresta, pisando em caminhos
cobertos de musgos, passando por entre as rvores que ostentavam suas
primeiras folhagens de primavera.
Em pouco tempo chegaria a uma clareira de onde poderia divisar a fachada 
de Lyde, em toda a sua magnitude.
Na sua infncia, o castelo do conde de Lydbrooke havia sido como um 
palcio de conto de fadas que coloria as histrias que a me lia para ela 
e nas quais aparecia sempre como a herona.
Agora, o Lyde tinha um significado mais definido, embora no pudesse 
precisar exatamente qual.
Enquanto caminhava por entre as rvores, sua presena camuflada pelo 
vestido de musselina verde-claro que usava, viu, com surpresa, que havia 
um homem sentado num tronco de rvore.
Era justamente o local ende pretendia se sentar para olhar para o 
castelo. Parou, ento, extremamente aborrecida por j haver algum l.
Pensou em voltar, em vez de se defrontar com um estranho. Estava indecisa 
sobre o que fazer, quando notou que ele tinha na mo um objeto que 
brilhava, logo percebendo que se tratava de uma pistola.
Chocada, viu o homem aproximar a arma da tmpora.
Sem pensar nas consequncias de seu ato, correu na direo dele e falou, 
numa voz baixa e ofegante:
No. no deve fazer isso!  uma ao. m e.
covarde!
Estendeu a mo e pousou-a no brao dele.
O homem voltou-se para ela, obviamente espantado com a
interferncia.
Farica observou-o. Tratava-se de um cavalheiro que nunca
vira antes.
Por alguns instantes, ficaram simplesmente olhando um para o outro.
Depois, falando atrapalhadamente, e retirando a mo do brao dele, ela
disse:
Sinto muito. pensei que pretendesse se matar.
E achou que era seu dever impedir-me.
A voz do homem era baixa e profunda, e Farica corou ao
responder:
Talvez pense que eu no tenho o direito de interferir, mas
toda vida  muito preciosa e no deve ser desperdiada.
Ele fez um ligeiro trejeito de desdm com os lbios e respondeu:
De onde venho, a vida  um artigo barato, de muito pouco
valor. No entanto, para voc, ela  inestimvel.
Farica corou novamente e disse:
Desculpe-me, mas no estamos acostumados, nesta parte
do pas, com pessoas brandindo pistolas. Aqui, os nicos que fazem isso 
so os salteadores de estrada.
O cavaleiro sorriu.
- E voc acha que eu sou um deles?
Estou certa de que no. Por favor, guarde a arma. Ela
me assusta.
De repente, percebendo que a moa estava de p e ele sentado, o homem 
ergueu-se e colocou a pistola no bolso do casaco. Era uma arma antiquada, 
de material de baixa qualidade.
O homem sorriu, o que transformou seu rosto fino e severo.
Suponho que devo agradecer-lhe pela sua considerao
- para comigo, o que significa um ato de bondade. - Farica nada disse e, 
aps alguns momentos, ele acrescentou, como se estivesse falando consigo 
mesmo: - E estou precisando muito de bondade, neste momento.
Farica notou uma longa cicatriz numa das tmporas dele e, meio hesitante, 
comentou:
- Creio, sir, que foi soldado.
-  assim to bvio?
- Ento era soldado! Se acaba de retornar da Frana, tendo estado no 
exrcito de ocupao, deve ter encontrado as coisas muito estranhas e 
diferentes na Inglaterra.
- To diferentes que a fizeram pensar que eu, incapaz de enfrent-las, 
pretendia suicidar-me. E no estava muito longe da verdade. Realmente, 
achei tudo muito diferente e no sei o que fazer a respeito.
- Lamento muito - disse Farica num tom de voz suave, solidrio. - Sei o 
quanto deve ter sido difcil para voc. Papai est muito aborrecido com a 
maneira como nossos soldados, que to valentemente lutaram contra 
Napoleo, foram dispersados, sem ao menos uma penso. E nada tem sido 
feito para arrumarlhes emprego, coisa difcil de encontrar, no momento.
O cavalheiro assentiu movendo a cabea, concordando com as palavras dela, 
e Farica perguntou-lhe:
- Qual era o seu regimento?
Ele hesitou um momento e depois respondeu:
- O de cavalaria.
- Ento lutou em Waterloo! - exclamou Farica.
Ele concordou novamente com um gesto de cabea, e Farica acrescentou:
- Li tudo o que pude a respeito dessa magnfica batalha e da bravura de 
nossos soldados. - Depois soltou um suspiro e disse: - Mas... muitos 
deles... foram feridos ou esto mortos.
-  verdade.
Sem se dar conta do que fazia, ela deu a volta em torno do tronco e 
sentou-se ali.
- Meu irmo foi morto na Pennsula. Morreu corajosamente e ainda no 
consegui aceitar que nunca mais o verei.
O cavalheiro voltou a sentar-se no tronco, dessa vez ao lado de Farica, e 
disse:
- A guerra  cruel, no somente para aqueles que lutam nela, mas tambm 
para os que ficam  espera.
-  verdade. Ficamos numa longa expectativa, porque a primeira carta do 
oficial comandante de Rupert nunca chegou at ns. E, quando finalmente 
ficamos sabendo do ocorrido. papai quase morreu de desgosto.
Havia tristeza na voz dela e seus olhos estavam enevoados.
O homem ao seu lado nada falou, apenas encarou-a.
Farica era mida, parecia uma slfide, com um rosto fino e estranhos 
olhos amendoados que lhe davam uma aparncia extica.
"Ela  bonita", pensou ele, "bonita, com seu cabelo cor de areia, cheio 
de cachos."
Era um rostinho estranho, difcil de esquecer.
A voz era doce e musical, como o barulho do vento soprando nas folhas.
Farica fez esforo para afastar as lembranas e perguntou-lhe:
- No deveria estar falando de mim, mas de voc. Agora que est de volta 
da guerra, o que pretende fazer?
- Era exatamente essa pergunta que vinha fazendo a mim mesmo. E, quando 
voc apareceu para impedir-me de cometer o que chama de "um ato de 
covardia", ainda no havia encontrado a resposta.
Ele sorriu, ao terminar a frase, mas Farica estava sria.
- Vai ser muito, mas muito difcil, se no tem dinheiro nem uma famlia 
para cuidar de voc.
- Acho que vou depender da sorte. Devo rezar para que o destino e os 
deuses sejam bons para comigo, o que j foram, colocando voc no meu 
caminho.
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- Obrigada, mas no quero que fique me elogiando. Quero, se possvel, 
ajud-lo.
- Por qu?
A pergunta foi abrupta e Farica olhou-o surpresa, antes de responder:
- Porque voc foi um soldado e tambm porque, por coincidncia, trouxe o 
seu problema para o mesmo lugar para onde eu trouxe o meu.
- Tem um problema?
Ela fez que sim com a cabea.
- Agora estou sendo telepata, ou talvez clarividente, mas tenho certeza 
de que seu problema diz respeito a um homem e, naturalmente, a amor e 
casamento.
- No  bem assim.
- Ento, casamento!
Farica no respondeu, mas ele sentiu que havia atingido o ponto 
nevrlgico.
- E veio para c - continuou ele - para resolver se deve casar com algum 
importante e distinto que pediu a sua mo, mas a quem no ama.
-  isso mesmo - concordou Farica, meio ofegante. Como posso desposar um 
homem que no amo?  sobre isso que vim aqui pensar.
Os olhos dela, um pouco perturbados, voltaram-se para o Castelo de Lyde, 
enorme, magnfico, impressionante, iluminado pela luz do sol. O 
cavalheiro acompanhou o movimento e indagou:
- Est me dizendo que seu pretendente  o conde de Lydbrooke?
Farica soltou um gritinho.
- Por favor. no v muito fundo, nerri tente adivinhar coisas que no lhe 
dizem respeito. Papai ficaria escandalizado se soubesse que estou 
conversando to intimamente com um estranho.
- Pensei que, por um momento, aqui no meio da floresta,
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estivssemos fora do tempo e do espao e livres de todas as convenes 
sociais.
Fez uma pausa, e Farica encarou-o com uma expresso indagadora. Ele 
continuou:
- Voc  uma ninfa das florestas que tem um problema, e eu sou um sbio, 
um filsofo, se preferir, que vai tentar orientla para que no sofra, e 
para que encontre o caminho da felicidade.
Ele falava numa voz baixa e sonora que parecia caracterstica de sua 
pessoa, e Farica, batendo palmas, disse:
-  uma ideia encantadora! Gostaria de ser uma ninfa da floresta. uma 
ninfa de verdade. Assim poderia desaparecer no meio das rvores e ningum 
me encontraria. nem me obrigaria a fazer coisas que no desejo.
- Pelo que disse, concluo que no pretende se casar. Ela entrelaou os 
dedos finos e delicados e replicou:
- Como posso me casar com ele se s o vi umas duas ou trs vezes? E, diga 
papai o que disser, no acredito que o conde Fergus me ame.
Aps uma pausa, o cavalheiro perguntou:
- Fale-me a respeito do velho conde.
- O conde era um velhinho adorvel. E foi muito bom para papai, quando 
ele comprou a manso que pertenceu ao priorado. Nossos vizinhos do campo 
nos olhavam com superioridade porque ramos recm-chegados.
- Ento, o que aconteceu? - inquiriu o cavalheiro.
- O conde convidou papai para jantar. Naturalmente, eu era muito pequena 
para ser includa no convite, mas ele sempre me levava para caar. Depois 
que ele deu o exemplo, todos passaram a aceitar papai e receb-lo em suas 
casas.
Farica fez uma pausa para respirar e prosseguiu:
- Papai contou-me que o conde vivia muito preocupado com o filho, que 
estava no fogo cruzado da batalha. Todos aqui gostavam do visconde e 
rezavam para que ele voltasse para casa so e salvo.
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- Est dizendo que ele foi morto? Farica fez que sim com a cabea.
- Bem no fim da guerra. Mais precisamente, na batalha de Waterloo, mas a 
notcia de sua morte demorou a chegar.
Ela respirou profundamente e declarou:
- O conde perdeu a vontade de viver e logo faleceu. Foi um luto duplo 
para a aldeia.
Farica falava com voz comovida.
- Mas quem  o novo conde que est pedindo a sua mo em casamento?
-  um sobrinho do antigo conde, que nunca veio aqui enquanto o tio vivia
porque no se davam bem.
- Por que isso acontecia?
- Papai disse-me que era porque Fergus, o novo conde, era extremamente
extravagante e preferia as festas de Londres  vida simples do campo.
- Continue, por favor. Ela sorriu e continuou:
- Estou sendo muito indiscreta e repetindo mexericos quando lhe conto que 
o conde se cansou de pagar as dvidas do sobrinho e um dia cortou suas 
regalias.
- E  com esse homem que seu pai quer cas-la? - perguntou o cavalheiro, 
surpreendido.
Farica parecia constrangida, mas respondeu:
- Papai  muito rico. Creio que  por isso que o conde est interessado 
em mim.
- No posso entender por que seu pai quer tal casamento para voc.
Farica fez um gesto de desalento.
- A verdade  que papai sempre se ressentiu do fato de que, a despeito do 
apoio do velho conde, as pessoas desta localidade no o acham  altura 
delas. Papai  apenas um segundo baro, enquanto as pessoas daqui so 
muito esnobes e ficam falando de seus ancestrais como se descendessem do 
rei Artur.
O cavalheiro riu.
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- Entendo exatamente o que quer dizer. Mas, por outro lado, deve pensar 
em si mesma e lembrar-se de que quem vai se casar com o conde  voc, e 
no seu pai.
- Papai est encantado com a ideia de eu vir a ser a senhora do Castelo 
de Lyde - disse ela -, e como a propriedade faz divisa com a nossa creio 
at que, originalmente, era parte dela. seria um arranjo muito
conveniente, se juntssemos
as terras.
Depois de uma pausa, prosseguiu:
- No tem ideia do mal-estar que se cria, todos os anos, porque as aves 
de caa de papai voam para a propriedade do conde e eles dizem que ns 
caamos nas terras deles. Os guardas esto sempre em p de guerra.
O cavalheiro sorriu.
- Posso imaginar o que acontece.
- No tem ideia de como eles levam essas coisas a srio. E o mesmo 
acontece com os fazendeiros que competem entre si por causa de ovelhas e 
de gado. O pessoal do conde fica furioso, se papai ganha um prmio com o 
gado ou com sua criao de porcos.
O cavalheiro riu mais uma vez.
- No estamos falando de criao de animais, mas de voc. A propsito, 
no me disse o seu nome.
- Deveramos ter nos apresentado - disse Farica, solenemente. - Meu nome 
 Farica, e meu pai  sir Chalfont.
O cavalheiro estendeu-lhe a mo.
- Meu nome  John, John Hamilton.
Farica notou que a mo dele era forte e firme e sentiu as vibraes que 
emanavam de seu corpo atltico.
Tinha o dom de perceber as vibraes emitidas pelas pessoas e, algumas 
vezes, podia ver a aura que as circundavam, que podia ser brilhante como 
a luz, cinza como um nevoeiro ou, s vezes, negra e assustadora.
Agora, por mais estranho que pudesse parecer, percebia que aquele 
cavalheiro, em suas roupas modestas, era cercado por
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uma luz que recortava a silhueta dele contra os troncos das rvores.
Depois, tentou convencer a si mesma de que era somente efeito da luz do 
sol e de que estava imaginando coisas.
- Agora que j nos apresentamos - disse o cavalheiro pretendo, como o 
sbio a quem est consultando sobre o seu futuro, oferecer-lhe um 
conselho, esperando que o siga.
- vou escut-lo com toda a ateno.
- O que vou dizer  muito importante. Porque  muito bonita e tem muita 
imaginao, nunca deve se casar se seu corao no lhe disser que a 
pessoa  o homem a quem pode amar e em quem pode confiar.
Os olhos de Farica estavam muito brilhantes, quando ele disse:
-  o que eu tambm acho. Colocou em palavras exatamente o que estava 
pensando.
- Ento, seja firme e no se deixe levar, fazendo algo de que possa vir a 
se arrepender mais tarde.
Farica olhou para o castelo.
-  fcil falar, mas  muito difcil se opor  vontade de papai e tambm 
 do conde.
- Ento, tente ganhar tempo - acrescentou ele, com firmeza. - Acontea o 
que acontecer, no se deixe pressionar para no tomar uma deciso 
apressada ou agir precipitadamente.
- Tentarei, mas no ser fcil.
A voz dela era baixa, e a expresso preocupada voltara aos seus estranhos 
olhos esverdeados, que lembravam a pureza e a inocncia de um riacho da 
floresta.
Farica voltou-se para ele.
- Veja o que aconteceu. Disse que estava sendo egosta por falar de mim 
mesma, em vez de preocupar-me com voc. Conseguiu convencer-me a contar-
lhe os meus problemas e eu no ouvi os seus.
- Muito bem, ento vou contar-lhe os meus - replicou
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John. - Conhece algum lugar barato nas vizinhanas onde eu possa me 
hospedar para pensar no futuro?
- Conheo um lugar, mas talvez voc no o considere  sua altura.
- Garanto-lhe que no estou em condies de fazer exigncias, pois tudo o 
que possuo, no momento, so uns poucos tostes, alm do cavalo que est 
esperando por mim e da arma que nos aproximou.
Farica suspirou.
- Foi uma forma muito estranha de se conhecer, mas estou muito contente 
por isso ter acontecido. E, como voc me ajudou, por favor, deixe-me 
ajud-lo!
- Estou escutando.
- Na nossa vila, bem na fronteira desta propriedade, existe uma estalagem 
denominada Fox and Goose.  bem pequena e administrada por um velhinho 
adorvel, que conheo h muitos anos. Ele  muito bom. Aqui, todos os que 
tm algum animal ferido levam-no para l, porque ele o trata e o cura.
- E voc acha que ele me aceitar como hspede?
- Se eu lhe pedir, estou certa de que o velho Abe Barnes o receber. Alm 
disso, se essa cicatriz que tem na testa ainda estiver incomodando, ele o 
aliviar.
John sorriu.
- Se isso for verdade, Abe Barnes  o tipo de pessoa que eu estou
procurando.
- vou lev-lo l. O caminho mais curto  pela floresta.
- O conde lhe d permisso para atravessar as suas terras?
- indagou John.
- O tio dele permitia que eu cavalgasse em qualquer lugar da propriedade, 
e todos os guarda-caas e guardas florestais me conhecem, mas, se voc 
vier aqui sozinho, pode ter problemas.
Adivinhando a pergunta que ele ia fazer Farica foi logo explicando:
- O novo conde no  muito bondoso para com os habitantes do lugar. As
coisas ficaram um pouco  vontade no
tempo do tio dele. Por esse motivo, ameaou levar ao tribunal e at
desterrar qualquer um que fosse apanhado invadindo a propriedade para 
caar ou que fosse pego na floresta.
A voz dela tinha uma nota de raiva que no passou despercebida a John, 
porm ele no fez nenhum comentrio.
Seguiram pelos caminhos sinuosos por entre as rvores, at o local onde 
ficara o cavalo dela. Pgaso estava l, solto para vagar e comer grama.
Ela assobiou e o animal veio trotando ao seu encontro. John ajudou-a a 
montar e lhe arrumou a saia rodada sobre o estribo.
Deu um tapinha no lombo de Pgaso e disse:
- Este  o melhor cavalo que vi nos ltimos tempos.
- Ele  meu. Eu o amo e ele me ama. E, como pode ver, vem quando assobio.
- Acho que o cavalo que comprei quando cheguei a Portsmouth no  to 
obediente - disse John. - Amarrei-o a uma rvore logo aqui perto. Espera 
por mim?
John saiu correndo e ela ficou observando-o, pensando que, apesar de suas 
roupas de qualidade inferior, ele se movimentava com a leveza de um 
atleta.
Pela primeira vez, notou que ele era muito magro e tinha a tez plida de 
um convalescente.
Pela profunda cicatriz na testa, deduziu que fora ferido em Waterloo e 
que talvez tivesse voltado ao quartel muito cedo, antes que pudesse se 
recuperar totalmente.
Um grande regimento, aps a batalha decisiva que liquidara com a guerra, 
fora mantido na Frana para atuar como um exrcito de ocupao, para 
desespero dos franceses.
O duque de Wellington prometera reduzir o nmero de soldados e agora eles 
estavam, pouco a pouco, voltando para a Inglaterra.
"Como encontrar um trabalho para ele?", perguntava Farica a si mesma, 
preocupada.
Sabia que no havia vagas na propriedade do pai. Alis, sir Robert havia 
empregado muito mais mo-de-obra do que realmente
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precisava, s porque se condoer daqueles que retornavam ao lar.
Estes esperavam ser tratados como heris e descobriram que no passavam 
de um estorvo, frequentemente desprezados, tratados como vagabundos e 
fracassados.
Era tremendamente injusto, e ela suspeitava de que muitos desses homens 
estivessem de fato assaltando, roubando e at matando, por estarem 
desesperados.
"Devo tentar ajud-lo", pensou Farica, quando o viu voltar, montado no 
seu cavalo, que de maneira nenhuma era um cavalo de raa, de boa 
qualidade como o dela.
Mas John cavalgava com garbo, demonstrando ser um bom cavaleiro.
Trotaram, um na frente do outro, contornando a floresta, at chegarem a 
uma passagem que permitia que cavalgassem lado a lado.
Era um cenrio muito bonito. Os passarinhos cantavam nas rvores, os 
coelhinhos corriam  frente deles e os esquilos tagarelavam nos ramos 
altos das rvores.
- Havia esquecido o quanto a Inglaterra  bonita! - exclamou John,
entusiasmado.
- Para mim, esta  a parte mais linda de todas, e  por isso que.
Farica se interrompeu, com medo do que ia revelar, mas ele completou a
sentena:
- que voc est pensando em aceitar a proposta do conde.
- No, realmente, eu no gostaria de possuir aquele castelo, que  grande 
demais, onde posso me sentir perdida, assustada. Mas queria as florestas, 
o lago, as cascatas, e tambm a piscina mgica na mata de pinheirais, 
onde costumo ir quando estou preocupada ou deprimida.
- Talvez, se tiver tempo, possa mostr-los para mim sugeriu John.
- Estaria realmente interessado?
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- Muito interessado. E, como sabe, estou preocupado e deprimido.
- Posso entender isso. Mas creio que sabe, no seu ntimo, que, se confiar 
no seu destino e talvez em voc mesmo, tudo acabar bem.
Ela falava meio sonhadora, pensativa, como se estivesse lendo numa bola 
de cristal, e John perguntou abruptamente:
- Por que diz isso?
- Porque tenho certeza.
- Da mesma forma como tenho certeza de que voc no deve e no vai se
casar com o conde?
Ela sorriu. E, meio encabulada, tocou o cavalo com o chicote e saiu 
correndo na frente.
Emergiram do outro lado da floresta, nos fundos do parque. Farica 
enveredou por um caminho estreito com cercas vivas cobertas de 
madressilvas.
Foi s ento que John notou que ela no estava usando o tradicional traje 
de montaria, mas sim um vestido, e que no trazia chapu na cabea.
Como se houvesse lido os pensamentos dele, Farica explicou:
- Sa de casa logo depois que papai me falou do conde e fui direto para 
os estbulos apanhar Pgaso. Selei-o e vim para o meio das rvores para 
pensar sossegada. Est escandalizado com a minha informalidade?
- Nem um pouco - replicou John. - S a estou admirando por ser to 
diferente das outras mulheres, que passam metade de seu tempo enfeitando-
se diante do espelho.
Farica soltou uma risada alegre e juvenil,
- Nunca fao uma coisa to ridcula. Papai vive dizendo que devo ir para 
Londres a fim de ser apresentada  rainha. Talvez ao prncipe regente... 
e ir a bailes e reunies, lugares onde devo aparecer toda elegante.
- Mas voc gostaria disso?
Farica pensou um pouco antes de responder:
- Creio que seria uma experincia interessante, mas prefiro
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ficar no campo. Adoro estar aqui com papai! S depois que o novo conde
chegou, perturbando tudo,  que eu fiquei assustada e preocupada. O resto 
da histria voc j sabe.
- J lhe disse o que fazer - John falou com firmeza.
- Vai ser muito, muito difcil!
- Mas seu futuro ser ainda mais difcil se tomar a deciso errada.
Bem em frente a eles ficava a praa da vila, com sua tradicional ponte, 
antigos pilares de pedra e madeira e uma bonita estalagem pintada de 
preto e branco, com telhado de colmo.
- Voc me promete uma coisa? - perguntou Farica. E que no vai ficar
chocado com meu pedido? Sei que vou pedir algo muito anticonvencional.
- O que ? - indagou ele.
- Por favor... no v embora sem me ver de novo... ou me avisar de que 
est partindo.
- Por que est me pedindo isso?
- Porque voc me ajudou no meu problema... e talvez eu venha a precisar 
de ajuda outra vez.
- Se o que acaba de dizer  verdade, sinto-me muito lisonjeado e lhe 
prometo, Farica, que, enquanto precisar de mim, pode contar comigo.
O rosto dela se iluminou como o de uma criana.
- Obrigada, obrigada! Estou agora muito mais aliviada do que estava 
quando sa de casa.
Ao chegarem  estalagem, John apeou e ajudou Farica a fazer o mesmo.
Ela lhe agradeceu com um sorriso e saiu andando na frente, passando pela 
porta aberta para encontrar Abe. O velho se encontrava no ptio, rodeado 
de seus pacientes, alguns em gaiolas, outros em canis e dois deles em 
baias improvisadas.
Estava sentado num banquinho, tendo na mo um tordo com a asa quebrada.
Farica parou ao lado dele, em silncio, para no assustar o pequeno 
paciente.
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S depois que tratou da avezinha com seus dedos mgicos e a colocou na 
gaiola  que ele a encarou.
-  a srta. Farica?
- Sabia que iria encontr-lo aqui, Abe - respondeu ela.
- Trouxe-lhe um paciente muito especial, que precisa de seu auxlio.
O velho Abe encarou John, que estava de p atrs dela, com ar 
interrogativo, e Farica acrescentou:
- John Hamilton  um soldado que acaba de voltar da guerra, Abe, e, como 
pode ver, est ferido na testa. Est tambm muito espantado com as 
mudanas que ocorreram na Inglaterra, enquanto lutava contra os 
franceses.
Abe sorriu.
- Bem, vamos ver o que podemos fazer por ele. Quer tambm que o hospede 
aqui?
- Se o aceitar.
- Qualquer amigo seu, srta. Farica, no ser rejeitado por mim.
- Obrigada, Abe. Sabia que podia contar com voc.
O dono da estalagem fitou John, que lhe estendeu a mo.
- Ficarei muitssimo grato se arranjar acomodaes para mim.
Abe examinou-o por um momento e depois indagou:
- Ser que no o conheo de algum lugar? John negou com um gesto de 
cabea.
- Creio que no. Estive no exterior durante sete anos.
- Na guerra! - exclamou Abe. - E h um grande nmero de soldados que no 
voltaram.
Para desviar a ateno de John do assunto, impedindo que comeasse a 
ficar melanclico, Farica mostrou-lhe os pacientes de Abe, encontrando um 
cozinho com a pata quebrada.
- O que houve com a pata dele, onde conseguiu se machucar tanto? - 
perguntou a Abe?
- Uma armadilha, srta. Farica. - O tipo de coisa que no havia na 
floresta, no tempo do antigo conde.
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- Est me dizendo que esto colocando armadilhas nas florestas de Lyde? - 
perguntou Farica, indignada.
- Por toda parte. Tenha cuidado e olhe bem onde pisa. Eles dizem que  
para apanhar animais predatrios, mas, se quiser saber a minha opinio, 
digo-lhe que querem fazer os homens e animais sofrerem.
- Isso  errado,  mau! - gritou Farica. - Por que o conde faria uma 
coisa to cruel, quando at agora nunca se importou com o castelo e nunca 
quis caar na floresta?
- Ouvi dizer que agora est tudo diferente - comentou Abe. - Cavalheiros 
elegantes vm de Londres, no outono, e fazem festas extravagantes com 
belas mulheres, todas as semanas, desde que o conde tomou posse do 
ttulo.
O velho homem falou em tom de censura, e Farica, largando o cozinho, 
entrou na estalagem.
- Devo voltar para casa - falou para John, que a havia seguido. - Abe vai 
cuidar de voc e...
Ela parecia encabulada, e ele perguntou:
- Onde nos encontraremos, amanh, e a que horas?
- No sei exatamente o que vou fazer amanh, mas, vamos combinar assim.
Ns nos encontraremos no mesmo lugar de hoje. Se precisar mudar os
planos, envio-lhe um bilhete para c por um lacaio. E tenha cuidado para 
no se perder. Depois, mudou de ideia: - No! Acho que no vai dar certo. 
Se o encontrarem sozinho, podero pensar que  um caador furtivo e ser 
difcil explicar por que est atravessando a propriedade do conde.
- Ento, onde poderemos nos encontrar?
- Num dos bosques de papai. Fica logo no comeo da estrada. No centro 
dele vai encontrar uma clareira, de onde os lenhadores removeram um 
grande nmero de rvores.
- Encontrarei esse lugar e l estarei, s trs horas. Ter tempo para 
almoar e sair sem ser notada.
- Assim espero - replicou Farica. - Estou certa de que ficar seguro e 
feliz com Abe.
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- Tambm acho. E mais uma vez obrigado por haver sido to bondosa comigo.
Havia uma nota to profunda na voz dele que ela no conseguiu encar-lo, 
e olhou rapidamente em outra direo,
John ergueu-a e colocou-a na sela. Pareceu-lhe que demorou um pouco
demais, ajeitando-lhe a saia.
Quando se voltou para fit-lo, notou que seus olhos eram to azuis quanto 
o mar e que, a despeito da palidez, era um homem muito bonito.
- Mais uma vez lhe agradeo, Farica.
Estendeu-lhe a mo e ela a segurou, sentindo uma doce vibrao.
Partiu, contendo-se para no olhar para trs.
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CAPTULO II

Chegando em casa, Farica viu que tinham visita. Sem dvida, era a
carruagem aberta do conde de Lydbrooke. Nas portas estava gravado o 
braso da famlia e os arreios de prata dos cavalos tambm tinham a 
insgnia.
Seu corao se apertou quando se deu conta de que no teria chance de 
falar a ss com o pai antes de ver o conde.
O cocheiro, com seu chapu alto, de penacho, j a havia reconhecido e, se 
ela fosse direto para os estbulos e no parasse na casa, poderia dar 
ensejo a comentrios.
Desmontou do cavalo ao p da escada e imediatamente um lacaio veio 
correndo levar Pgaso.
Farica deu um tapinha no pescoo do cavalo, dizendo:
- Ele se comportou muito bem hoje, Jim, e merece uma boa refeio como 
prmio!
- Estava esperando por ele, senhorita - disse Jim, sorrindo.
Farica subiu vagarosamente os degraus e, quando chegou ao
hall, o mordomo avisou-a:
- O conde de Lydbrooke est com seu pai, srta. Farica! Ela parou em 
frente ao espelho de moldura dourada, estilo
Chippendale, para ajeitar os cabelos, e dirigiu-se  sala de visitas, 
onde o lacaio lhe abriu a porta.
Entrou na sala e, antes que notassem sua presena, pde ver que o conde e 
seu pai conversavam seriamente a seu respeito.
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Quando se aproximou deles, o conde ps-se de p e seu pai disse-lhe, 
zangado:
- Por onde andava, Farica? No me avisou de que ia cavalgar!
- Sinto muito, papai, no pretendia demorar tanto, mas o dia estava to 
bonito!.
Quando se aproximou da lareira, fez uma mesura para o conde, que disse:
- Antes tarde do que nunca! Estava receoso de partir sem v-la.
- Estou aqui - respondeu Farica, friamente. E acrescentou em tom de 
censura: - Estou muito aborrecida por saber que tem permitido a 
construo de armadilhas na sua propriedade. Nunca houve isso antes.
- Decidi que j era hora de impedir que qualquer um ficasse caando 
minhas aves e perseguindo meus coelhos replicou o conde.
Farica encarou-o e, embora ele estivesse extremamente elegante e fosse 
razoavelmente bem-apessoado, concluiu que no gostava dele.
Se antes estivera incerta de seus sentimentos, sabia agora que, 
definitivamente, no confiava no conde de Lydbrooke, e nada que dissessem 
a convenceria a casar-se com ele.
- Que tipo de armadilhas est usando? - indagou sir Robert ao visitante.
- Oh, o tipo comum! Elas se destinam aos animais predatrios, mas, se 
algum invasor for pego em uma delas, ser punido adequadamente e 
provavelmente desterrado.
Farica soltou uma exclamao de revolta:
- Como pde pensar numa coisa to cruel, to horrvel? O povo desta 
aldeia sempre teve liberdade de andar por suas terras, assim como tem nas 
nossas. Por isso, no esto a par das novas restries e correm o risco 
de ficar machucados e at mesmo de ser levados diante dos magistrados.
O conde deu um sorriso cnico.
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- Cuido daquilo que me pertence - disse ele - e no vou admitir que 
fiquem atravessando pela minha propriedade.
Seu tio no agia assim - argumentou Farica.
- Meu tio estava caduco devido  idade - replicou o conde.
- Ele no s tolerava vagabundos e invasores, como tambm permitia que os 
fazendeiros atrasassem os aluguis e que os moradores dos chals 
deixassem seus telhados carem, por falta de reparos.  hora de colocar 
as coisas em seus devidos lugares.
Farica fitou-o, incrdula.
- Mas deve saber que as coisas nunca estiveram to difceis como agora - 
contestou ela. - Desde que a guerra terminou, os fazendeiros no 
conseguem vender sua produo, os preos caram vertiginosamente e at 
mesmo os bancos esto fechando suas portas. - Quando terminou de falar, 
olhou para o pai e acrescentou: - Sabe que  verdade, papai!
- Creio que sim - concordou sir Robert. - Eu mesmo estou empreendendo 
todos os esforos possveis para ajudar meus fazendeiros e reduzi os 
aluguis pelo segundo ano consecutivo.
- O senhor pode se dar ao luxo de ser filantropo - disse o conde. - Isso 
 algo que minha atual situao no me permite.
Lanou um olhar rpido para Farica, e ela logo adivinhou que ele estava 
pensando que, se se casassem, teria uma grande fortuna para gastar e no 
precisaria mais se preocupar com dinheiro.
Querendo desviar o assunto, Farica voltou-se para o pai e
comentou:
- Est uma tarde to bonita, papai! Por que no vamos passear no jardim? 
Uma de suas azleas importadas est comeando a florir.
Como o pai se interessava vivamente pelo jardim, sabia que o convite o 
atrairia, e ele se levantou, dizendo:
- Voc tem razo. Podemos tomar um pouco de ar. Houve um momento de 
hesitao, enquanto o conde decidia
se iria acompanh-los ou se iria embora, como se esperava.
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Optou pela segunda alternativa, dizendo antes de sair:
- A propsito, sir Robert, vim aqui convid-los para jantar comigo esta 
noite. Estou hospedando um grupo muito divertido de amigos que vieram de 
Londres e tenho certeza de que gostaro muito.
- Estou certo disso tambm - concordou sir Robert. Obrigado. Farica e eu 
ficaremos encantados em ir ao castelo. O jantar ser s sete e meia, 
suponho.
- No, prefiro o horrio londrino. Jantamos s oito. Estendeu a mo para 
Farica. - Ento at l, srta. Chalfont. No  necessrio dizer-lhe que 
ficarei esperando, ansioso, a hora de rev-la, hoje  noite.
A maneira como ele falou, o olhar que lhe lanou e o toque de sua mo 
eram repulsivos para Farica.
Contrastando com o modo como respondera positivamente s vibraes 
emanadas de John Hamilton, encolheu-se ao ser tocada pelo conde.
Para seu alvio, ele caminhou para a porta e seu pai acompanhou-o at o 
hall para v-lo embarcar em sua carruagem.
Farica, no entanto, no saiu de perto da lareira, na sala de visitas.
Olhando em torno do aposento, primorosamente decorado pela me, sem 
conseguir explicar, sentiu que o conde havia deixado atrs de si uma 
atmosfera de discrdia e mal-estar.
Quando o pai voltou, ela lhe disse:
- Venha comigo para o jardim. Quero falar com voc.
-  claro, minha querida. Mas espero que no me venha falar de assuntos 
desagradveis.
Farica no respondeu. Acompanhou o pai pelo corredor que ia dar no 
jardim, nos fundos da casa.
Havia um canteiro de rosas muito bem desenhado e, alm da cerca viva de 
teixos, um jardim de ervas aromticas, plantado no perodo elisabetano, 
quando a prpria casa tinha sido construda.
A paisagem era encantadora, e sir Robert enfeitara o cenrio
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com plantas exticas importadas de outras partes do mundo, alm de rosas,
lilases, cravos e fcsias, criando faixas coloridas de extraordinrio
efeito, em contraste com o tom suave dos tijolos vermelho-rosado da casa.
Farica mostrou ao pai uma azlea que despertava seu particular interesse, 
pois viera da ndia e era um presente de um
amigo.
O pai ento, segurando-lhe a mo com delicadeza, falou:
- Fiquei preocupado quando voc desapareceu, aps o almoo. No tive 
inteno de aborrec-la.
- Mas eu me aborreci, papai - replicou Farica. - Embora saiba que no 
quer falar sobre isso, no mudei de ideia. Alis, agora que o encontrei 
novamente, estou decidida a no me casar com o conde.
Falou em tom firme e determinado, sentindo nisso a influncia de John.
O pai permaneceu em silncio por alguns instantes e depois argumentou:
- Como pode ser to tola? Se recusar Lydbrooke, onde encontrar um
marido que possa lhe oferecer tanto?
- Se est falando do ttulo - respondeu ela, em voz baixa -, quero mais 
do homem com quem vou me casar do que uma coroa.
- Sei o que vai dizer - interrompeu o pai. - Quer se apaixonar.  claro 
que toda mulher deseja isso, mas o amor, minha adorada criana, vem 
geralmente com o casamento.
- E se no vier? O que se pode fazer?
Sir Robert deu alguns passos incertos, como se estivesse com dificuldade 
para ficar quieto. Depois falou:
- Eu a amo, minha querida, voc sabe disso, mas no vou negar que, desde 
que comprei esta casa, imaginei que um dia, se os bons deuses ajudassem, 
voc se casaria com o dono do castelo de Lydbrooke.
Farica notou a mgoa nos olhos dele.
-  claro que, naquela poca, imaginava que Rupert estaria
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no meu lugar, quando eu morresse. Mas agora nossa casa ser sua, e o que
pode ser melhor do que us-la como habitao, se seu marido falecer antes
de voc, ou como um lugar para o seu segundo filho, j que o primeiro
herdar o castelo? Farica sentiu-se angustiada.
- Pare, papai, pare! O senhor est planejando as coisas com muita 
antecedncia. Sinto-me numa armadilha, sem escapatria.
- No tenho a inteno de aborrec-la, mas, por outro lado, Lydbrooke lhe 
daria a posio que sempre desejei para voc, o lugar a que tem direito. 
Faria jus  posio de sua me.
Farica sabia que, como sua me viera de uma tradicional famlia de 
Devonshire e seus ancestrais remontavam  poca da conquista normanda, o 
pai sempre se sentira culpado por seu sangue no ser to nobre quanto o 
da esposa.
E, como dissera para John, ele era apenas um segundo baro.
Mas por que deveria estar preocupada com as ambies do pai? Ele, 
naturalmente, queria o melhor para ela. Mas nunca poderia ser bom para 
Farica casar-se com o conde de Lydbrooke.
"Por que ser que eu o detesto tanto?", perguntou a si mesma, sem 
encontrar resposta.
Mas, sabendo que seria um erro discutir com o pai e contrari-lo a ponto 
de ele ficar ainda mais determinado a torn-la a condessa de Lydbrooke, 
segurou no brao dele e disse:
- Vamos falar de ns, papai, ou de uma coisa mais interessante, como 
cavalos. Soube que nasceu um potrinho, esta manh. J o viu?
- No - respondeu sir Robert. - Por que no me contaram?
- Creio que queriam lhe fazer uma surpresa. Vamos v-lo. No dei nem uma 
olhadinha nele, pois queria v-lo junto com voc.
Sir Robert sorria, quando saram do jardim e se dirigiram para os 
estbulos.
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Farica estava preocupada, enquanto se vestia para o jantar. Tinha a 
sensao de que era parte de um plano que seu pai e o conde estavam 
tramando, para que fosse forada a concordar com o que queriam.
Sua aia, que a acompanhava desde a infncia, ajudou-a a vestir um 
belssimo vestido branco, de gaze, enfeitado na barra, nas mangas e no 
decote com um padro imitando flocos de neve. O bordado era to 
requintado que parecia formar flocos de verdade. Quando ficou pronta, o 
pai, ao v-la descendo as escadas, exclamou:
- Voc  Persfone, o Esprito da Primavera, minha querida, e  desse
jeito que eu gosto de v-la.
- Obrigada, papai - ela disse, e pegou o xale, debruado de penugem de 
cisne, da mo do lacaio.
Enquanto se dirigiam  carruagem fechada, notou que seu pai estava muito 
elegante em seu traje de noite.
" muito, mas muito mais distinto que o conde de Lydbrooke", pensou.
A caminho do castelo, disse ao pai:
- A propsito, papai, h, por acaso, uma vaga na sua propriedade para um 
jovem, um cavalheiro, que acaba de retornar da guerra mas que no tem 
profisso definida?
- Um soldado?
- De cavalaria. Foi ferido em Waterloo.
- Como o conheceu?
Era uma pergunta que Farica j esperava, e ela respondeu:
- Ele est hospedado na estalagem de Abe Barnes e precisa ganhar a vida.
- H um grande nmero de homens nessa mesma situao, minha querida.
- Eu sei, papai, mas podemos ajudar um de cada vez somente,  medida que 
solicitem o nosso auxlio.
- Est me dizendo que esse homem ousou pedir a sua ajuda? indagou sir 
Robert.
- No,  claro que no! Mas, diante das circunstncias,
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senti pena dele. Tem um grave ferimento na testa, que, tenho certeza, Abe 
curar.
- Bem, h pouca coisa que eu posso fazer. Como sabe muito bem, j estamos 
com excesso de mo-de-obra. E esta manh fiquei sabendo que o conde 
demitiu trs trabalhadores de uma de suas fazendas e despejou os Prosper
da deles.
Farica fitou o pai, atnita.
- Os Prosper? Mas eles esto na Biggin Farm h quatro geraes!
- Sim, eu sei - concordou sir Robert -, mas no podiam pagar o aluguel e 
alegaram que era impossvel cobrir todas as despesas.
- Como o conde pde fazer algo to cruel, to desumano?
- Acho que a resposta  muito simples. Ele no possui meios de viver no 
castelo do jeito que seu tio vivia antes da guerra.
E Farica acrescentou mentalmente: "A menos que encontre uma esposa rica".
Como o pai estava obviamente pensando o mesmo, eles seguiram em silncio 
at os cavalos chegarem aos imponentes portes de ferro batido, com 
detalhes dourados, tendo uma guarita de cada lado e o escudo herldico 
dos Brooke esculpido em pedra.
O porto levava a uma longa alameda de carvalhos, de onde o castelo, 
iluminado pelos ltimos raios de sol, parecia ainda mais encantador, mais 
maravilhoso do que visto da floresta.
No conseguiu reprimir o pensamento de que esse castelo que lhe povoava 
os sonhos desde que se conhecia por gente, poderia ser seu. Nunca poderia 
olh-lo sem sentir um frmito diante de sua beleza.
Mas estava consciente de que, por mais que o adorasse, nem em um milho 
de anos amaria o seu atual proprietrio.
H sculos, o castelo era o ponto de referncia de toda a regio.
Antes desse, existira no local um castelo medieval, que fora
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demolido no tempo do rei Henrique VIII e reconstrudo por ocasio da 
Restaurao promovida por Charles II.
Fora o av do atual conde que, seguindo um projeto de Robert Adam, 
erigira a magnfica obra. Era a edificao mais bela da regio e at o 
rei invejava a sua imponncia.
"Era um local to feliz", disse Farica para si mesma, enquanto os cavalos 
atravessavam a ponte sobre o lago, "mas agora."
No chegou a terminar o pensamento. Sentiu um ligeiro tremor perpassar 
pelo seu corpo, ao lembrar-se de que o conde estaria esperando para 
cumpriment-los.
Quando entraram na magnfica sala de recepo, de teto alto, iluminada 
por enormes candelabros que sustentavam, cada um deles, cem velas, Farica 
sentiu-se penetrar num mundo encantado. Mas certamente no era o prncipe 
encantado que vinha na direo deles, de mos estendidas.
Fez-lhe uma mesura e, quando se levantou, fitou-lhe o rosto, quase sem 
querer. A expresso dos olhos dele era petulante, parecendo violar sua 
personalidade de uma forma que era incapaz de explicar.
Levando-a pelo brao, o conde aproximou-se de um grupo de convidados que 
estava na outra extremidade da sala.
Todos eram de Londres, como se podia notar pela elegncia dos trajes. As 
mulheres ostentavam decotes bem generosos e saias transparentes, enquanto 
os homens usavam colarinhos altos demais e palets da ltima moda, muito 
apertados para serem confortveis.
Farica observou que era a nica mulher da recepo a no usar jias 
cintilantes, nem um band ou tiara na cabea.
Prestaram pouca ateno a ela, a no ser para olhar com desdm o pequeno 
fio de prolas que usava em torno do pescoo.
Sua me as teria considerado bem vestidas e adornadas de jias em 
demasia, para uma pequena festa campestre como aquela.
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Quando foram para a sala de jantar, Farica ficou ainda mais surpresa.
Como se decidido a tornar bvios seus sentimentos a respeito dela, o 
conde a havia colocado  sua direita, embora houvessem outras mulheres 
mais importantes presentes.
A seu lado esquerdo, o conde tinha uma beldade morena, de cabelos escuros 
e olhos cintilantes, que ostentava uma profuso de rubis e um vestido to 
decotado e transparente que parecia quase nua.
Farica raciocinou que sua estranheza se devia ao fato de ser uma pessoa 
simples, que nunca havia passado uma temporada em Londres.
O grupo tornou-se ainda mais barulhento e alvoroado quando se sentou  
mesa.
Antes da chegada de Farica e do pai eles j estavam bebendo champanhe, e 
ela pde notar que alguns homens j haviam se excedido e as vozes das
mulheres pareciam se elevar ainda mais cada vez que riam.
O conde s deu ateno a Farica.
- Preciso v-la a ss - disse ele, quando os pratos da entrada estavam 
sendo retirados por uma verdadeira corte de criados em libr.
- Creio que seria incorreto.
- Bobagem! - retorquiu ele. -  impossvel conversarmos aqui, com seu pai
sempre presente. vou lev-la para um passeio e poderemos parar em algum 
lugar, talvez no meio do bosque, deixando os cavalos com um cavalario. 
Garanto-lhe que vou ser muito eloquente, ao dizer-lhe o quanto me atrai.
Farica sentiu-se enrijecer, antes de responder:
- Acho que a sua sugesto no ter a aprovao de meu pai, e deve saber 
que seria extremamente anticonvencional comportar-se dessa forma.
- Ora, vamos! - retrucou o conde. - No precisamos ter cerimnia um com o 
outro. Quero me casar com voc e seu pai est de acordo, mas antes 
precisamos nos conhecer melhor.
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- Creio que o que est dizendo  que papai concordou em dar-lhe o seu
consentimento, desde que eu... concordasse em. ser sua esposa - disse
Farica, constrangida por esse tipo de conversa ter lugar  mesa de 
jantar.
O conde pareceu desconcertado. Ento, disse:
- Talvez ele tenha dito algo semelhante.  tudo uma questo de palavras. 
Quando estivermos juntos, sozinhos, vou lhe provar que elas so 
completamente desnecessrias.
Pela expresso dos olhos dele, ela percebeu o que estava pensando e 
desviou o olhar rapidamente.
Sentiu que, se ele tentasse toc-la ou beij-la, como obviamente 
pretendia, gritaria por socorro.
- O problema com voc - disse o conde, como se estivesse seguindo o fluxo 
de seu pensamento -  que, por ter vivido sempre no campo, no tem ideia 
do quanto pode se divertir em Londres.  l que moraremos, depois de 
casados, e promoveremos festas na Brooke House, em Berkeley Square, que 
duraro at o amanhecer. - Ele soltou uma risada e acrescentou: - Alis, 
 difcil lembrar-me de uma noite em que tenha ido dormir antes do nascer 
do Sol.
Farica olhou em torno da mesa, para os convidados, que pareciam ficar 
mais barulhentos a cada minuto que passava.
Para ela no havia nada mais intolervel do que uma festa onde a nica 
coisa que os convidados desejavam fazer era comer e beber em excesso e 
rir ruidosamente.
Lembrava-se dos deliciosos jantares que sua me promovia no priorado.
Nessas ocasies, ela caminhava na ponta dos ps pela parte do coro e 
olhava para baixo, para a sala de jantar bronial, onde antigamente os 
monges comiam sentados a uma mesa muito comprida.
Via ento sua me, encantadora, sentada a uma das extremidades da mesa, e 
seu pai, muito imponente,  cabeceira, sentado numa cadeira de espaldar 
alto.
Candelabros de ouro, ornamentos tambm de ouro e flores
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de verdade decoravam a mesa, e os convidados pareciam fazer parte de toda 
a elegncia do cenrio.
Eles conversavam animadamente entre si, mas em tom de voz moderado, e 
Farica sabia que discutiam assuntos srios como poltica, problemas 
nacionais e locais e talvez esportes.
Quando riam, era um som feliz e espontneo, no um rudo estridente, como 
o riso que agora ecoava nos seus ouvidos.
"Aquelas eram festas como as que eu gostaria de dar", pensou consigo 
mesma, notando, escandalizada, que um dos cavalheiros  mesa colocava o 
brao em torno dos ombros de uma das damas, e que a dama  sua frente 
encostara o dedo indicador nos lbios e o pressionara contra os lbios de 
seu acompanhante, dizendo em tom provocativo:
- Isto o satisfar por enquanto.
Tal comportamento chocava Farica, que j estava aborrecida com a maneira 
como o conde lhe dirigira a palavra, parecendo considerar certo que ela 
se tornaria sua esposa. O jantar parecia se prolongar interminavelmente.
Finalmente, para seu alvio, a dama sentada  esquerda do conde levantou-
se, um tanto cambaleante, dizendo:
- Agora, no fique bebendo vinho do Porto at ficar de pileque. Junte-se 
a ns, na sala de jantar, dentro de dez minutos ou ento virei busc-lo!
- Ouvi-la  obedecer-lhe, minha charmosa! - respondeu o conde, 
zombeteiro.
A dama acrescentou rudemente:
- E muito cuidado para no se esquecer! E precipitou-se em direo  
porta.
Farica seguiu-a, mas as demais senhoras pareciam ter dificuldade em 
separar-se de seus companheiros de mesa.
Quando chegaram  sala de visitas, a dama, coberta de rubis, disse-lhe:
- Fiquei sabendo que vai casar-se com o conde. Suponho que esteja 
consciente do que vai enfrentar.
- No h nada decidido ainda - respondeu Farica, timidamente.
- Bem, se  to rica quanto ele diz - acrescentou uma outra -, Fergus no 
a soltar. Pode ter certeza disso. Ele precisa de dinheiro, muito 
dinheiro;  algo que ele quer h muito tempo!
Todas caram na risada, como se se tratasse de uma piada particular que 
s elas compreendessem. Ento a dama dos rubis acrescentou:
- Espero que, se voc chegar a ser a condessa, seja boa para ns. 
Sentiremos falta de Fergus, no o tire de ns. Embora esteja sempre 
metido em alguma embrulhada, ele nos diverte.
- Isso  verdade! - concordou uma outra. - J lhe disse que ele vai longe 
demais. Um dia desses vai se encontrar em apuros de verdade.
- No, se ele tiver dinheiro para se safar - algum falou, e todas caram 
na risada de novo.
Farica no suportou mais escut-las. Percebia que todas supunham que ela 
no conseguiria escapar e que o conde iria despos-la por causa de seu 
dinheiro.
Ento se dirigiu  dama dos rubis, que estava fazendo as vezes de 
anfitri, e perguntou-lhe:
- Ser que eu posso lavar as mos? Esto bem pegajosas.
-  claro. Venha comigo, vou lev-la ao meu quarto.
- Por favor, no se incomode, no precisa subir comigo! J estive aqui
tantas vezes que conheo o caminho. Se me disser qual o quarto que est
ocupando, posso ir l sozinha.
- Est bem. Estou no quarto do rei Charles II, disso no esqueo, j que
 a primeira vez que durmo com um rei.
Riu de sua prpria piada e voltou para a sala de visitas, enquanto Farica 
subia as escadas.
Foi ento que, olhando para os retratos dos ancestrais da famlia Brooke, 
em suas molduras douradas, ela se perguntou o que estariam pensando dos 
atuais acontecimentos.
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Sabia que, se eles ainda vivessem, estariam chocados e atnitos com o 
comportamento dos convidados ao jantar.
S esperava que tal comportamento houvesse desgostado ao pai tanto quanto 
lhe desagradara.
Parecia-lhe que a atitude deles era um insulto  casa que tanto amava, um 
insulto aos Brooke, que, pelos sculos afora, haviam lutado e morrido por 
seu pas, como acontecera com o filho do falecido conde.
"Seria muito diferente, tenho certeza, se ele ainda vivesse", pensou, 
recordando-se de como o velho conde pouco estimava seu sobrinho Fergus.
Caminhou ao longo do corredor e entrou no quarto do rei Charles II, onde 
encontrou uma velha criada ocupada com a arrumao. Quando a viu, sorriu.
- Oh,  a srta. Farica! Faz tempo que no a vejo!
-  mesmo, Annie! - concordou Farica. - Como tem passado?
- Mais ou menos. As coisas mudaram muito, desde que o velho senhor 
morreu. O lugar ficou irreconhecvel.
- O que aconteceu? - perguntou Farica, j sabendo qual seria a resposta.
-  o pessoal que se hospeda aqui, senhorita! Nunca vi coisa igual. O 
velho conde se reviraria na sua tumba, se soubesse o que est 
acontecendo!
Ela despejou um pouco de gua morna da jarra de lato dentro da bacia de 
porcelana e trouxe uma toalha limpa para Farica enxugar as mos.
- No pode imaginar a quantidade de trabalho, srta. Chalfont, desde que o 
velho conde morreu - continuou Annie.
- Ningum vai dormir antes das cinco da manh, que  quando deveramos 
estar nos levantando. As criadas mais novas andam to cansadas que chegam 
a dormir em cima das vassouras. Nunca vi nada semelhante.
- Lamento muito, Annie - disse Farica.
- Estamos com pena de ns mesmas, esta  a verdade! 37
respondeu a criada, um tanto bruscamente. - Mas a senhorita sabe to bem 
quanto eu que est difcil encontrar emprego e que os mais idosos esto 
sendo demitidos.
- Demitidos? Por qu?
- Creio que o senhor quer somente jovens, por aqui disse Annie, como se 
estivesse falando consigo mesma. - Ele mandou embora o velho Burrows, que 
estava aqui h mais de quarenta anos.
- Notei a falta dele quando cheguei - comentou Farca mas nem imaginei 
que houvesse sido despedido.
- Pois bem, foi, senhorita! E o mesmo aconteceu com todos os jardineiros 
que se aproximavam dos sessenta anos, embora ainda tivessem capacidade 
para o trabalho, posso lhe garantir isso.
-  claro! - concordou Farica. - E tinham uma valiosa experincia.
Diga isso ao nosso amo. A nica coisa que lhe interessa  se divertir, o 
que deixa a casa em tal estado que se torna impossvel limp-la. E os 
estragos!... A senhorita ficaria escandalizada, se visse as coisas que 
foram quebradas, desde que o velho conde faleceu.
Farica no suportou ouvir mais nada sobre o assunto e procurou desviar o 
tom da conversa, indagando:
- O conde dorme no quarto de seu tio?
- Oh, sim!  o quarto do dono, no ? Quando chegou, foi logo dizendo: 
"Agora quem manda sou eu; ou vocs me obedecem ou esto na rua!" - Quase 
sem sentir, Annie imitou a voz- do conde. Depois, acrescentou: - E vou 
lhe mostrar uma coisa que vai deix-la escandalizada.
Farica queria dizer que no estava disposta a ver nada chocante, mas 
preferiu no ferir os sentimentos da criada.
Assim, acompanhou-a  sala de estar anexa ao quarto do falecido conde, 
onde ele costumava ficar quando j estava muito doente para descer.
Annie abriu a porta e ela pde ver,  luz das velas, que os
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quadros que antes estavam pendurados na parede haviam desaparecido.
Lembrava-se dos retratos da esposa do conde, do filho e de seus pais.
Eles haviam sido todos retirados do lugar e substitudos por pinturas 
extremamente vulgares, de mulheres, algumas delas danando.
Uma delas estava saindo do mar, uma outra estava deitada sobre uma rocha, 
ao sol, nua, s coberta pelos cabelos.
Eram pinturas grosseiras, mas, mesmo assim, tinham uma fascinao 
estranha, porque o corpo das mulheres fora representado acentuando-se o 
aspecto ertico, sensual.
Aps uma rpida olhada, Farica desviou a ateno e disse:
- Concordo com voc, Annie, no me parece certo que as pinturas originais 
tenham sido retiradas. Sabe onde foram colocadas?
- Meu amo ordenou que me livrasse delas, mas achei errado e guardei-as 
aqui.
Assim falando, Annie apertou um ponto secreto no painel, ao qual o velho 
conde costumava se referir como o "meu esconderijo especial".
Na verdade, era um esconderijo dos padres, construdo durante a 
perseguio aos jesutas, no reinado da rainha Elizabeth, e que havia 
conseguido sobreviver  reconstruo da casa, quando esta fora 
completamente transformada, no final do sculo passado.
Era agora um armrio grande, quadrado. Pegando um dos candelabros de cima 
da mesa, Annie entrou dentro dele, seguida por Farica.
L, pregados nas paredes, estavam todos os quadros dos quais se lembrava. 
Havia o retrato da falecida condessa, muito suave, gentil e encantadora, 
na sua tnica nobre, e do pai e da me do antigo conde, ambos mostrando
uma dignidade e um orgulho visvel em todos os retratos da famlia.
De p no fundo do armrio, estava o retrato do filho do
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conde, do qual ela s se lembrava vagamente, pois, como nunca o vira
pessoalmente, no lhe guardara as feies.
- Este  o visconde, o "senhor Ivan". Assim o chamvamos, quando ele era 
criana, e no havia ningum aqui que no o amasse e aguardasse o momento 
de servi-lo quando assumisse o lugar do pai.
A emoo na voz da criada era comovente.
Farica fitava o retrato, pensando que, se sentiam isso com relao a ele, 
certamente era muito diferente do que o que sentiam pelo seu primo.
Alguma coisa no rosto do visconde a fez recordar algum conhecido, talvez 
o conde, seu pai.
Ivan no tinha mais que vinte anos, quando posara para o retrato, o que 
fora, obviamente, antes de ele ir para a guerra.
Parecia jovem e feliz. Seus olhos brilhavam, os lbios sorriam, parecia 
querer sair da moldura. Seu cabelo escuro estava penteado para trs, 
revelando uma fronte quadrada.
Farica examinou o retrato com mais ateno e quedou-se imvel.
" impossvel!", disse para si mesma. Mas havia algo inequvoco naquela
testa, que lhe era familiar, pois tinha certeza de j a ter visto antes.
Alis, ela j a vira, naquele mesmo dia, com uma profunda cicatriz. Se o 
que estava pensando era verdade, aquele rosto estava magro e marcado pela 
doena.
Mas a semelhana era inegvel!
-  este realmente, o visconde? - perguntou, numa voz estranha.
-  claro que , senhorita.  um bom retrato dele. Se ele no tivesse
morrido, teria hoje vinte e oito anos.
- S. sim,  claro! - murmurou Farica. 
- As coisas seriam muito diferentes, se ele estivesse aqui, muito 
diferentes - comentou Annie. - Mas no h nada que possamos fazer, a no 
ser rezar para Deus proteg-lo, onde quer que esteja.
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A velha criada virou-se para esconder as lgrimas, e Farica ficou parada 
diante do retrato, fitando-o, em dvida, considerando se no estava
enganada, se a semelhana no era fruto de sua imaginao.
Mas a semelhana era inegvel.
Sem querer, Farica tropeara num segredo muito perigoso para John.
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CAPITULO III

Farica desceu as escadas e encontrou o pai esperando-a no hall. Estava
chocada, mas no sabia o que fazer.
Ao chegar perto dele, seus olhos tinham uma expresso interrogativa. Sir 
Robert foi logo dizendo:
- Creio, minha querida, que j est ficando tarde, e devemos ir para 
casa. O conde vai compreender que estou ficando velho demais para 
noitadas.
Era a primeira vez que Farica ouvia o pai dizer tal coisa, e isso a 
surpreendeu.
Mas, por outro lado, estava contente por no precisar voltar para a sala 
de visitas.
Nesse momento, a porta se abriu e um som alto veio da sala, ecoando pelo 
hall. Todo aquele burburinho vulgar e desagradvel contrastava com os 
pilares de mrmore, as esttuas clssicas e os finos quadros.
O conde, saindo da sala de visitas, veio ao encontro deles:
- Lamento muito que tenham de ir to cedo, mas  claro que entendo.
Falando francamente, os hspedes que esto aqui esta noite so, na sua 
maioria, amigos de amigos, de forma nenhuma so o tipo de pessoas que
pretendo convidar depois de casado.
Embora parecesse sincero, Farica sabia que ele estava mentindo e 
envolveu-se no seu xale de penas de cisne, como se quisesse proteger-se.
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- A sua carruagem est l fora, sir Robert - disse o mordomo, 
respeitosamente.
O pai estendeu a mo para o conde e Farica fez uma mesura.
- At logo, Lydbrooke! - disse sir Robert. - Sabe que ser um prazer 
receb-lo, quanto tiver tempo de nos visitar.
- Minhas visitas partem na segunda-feira de manh. Ento talvez consiga 
convencer sua filha a me honrar com sua companhia para um passeio na 
minha carruagem aberta, pela minha propriedade. H tanta coisa que Farica 
pode me ensinar a respeito, pois conhece o lugar bem melhor do que eu.
Ele falou com uma humildade destinada a desarm-los, mas para Farica soou 
como uma representao teatral. No entanto, ouviu o pai responder:
- Tenho certeza de que Farica ficar encantada, mas sugiro que venha para 
o almoo primeiro.
- Agradeo o convite - respondeu o conde.
Farica desceu os degraus acarpetados de vermelho e se dirigiu para a 
carruagem que os esperava.
O pai se juntou a ela, os lacaios fecharam as portas e partiram. O conde, 
de p no alto da escada, ficou a olh-los, acenando.
Sir Robert recostou-se no assento macio e acolchoado.
- Sinto muito, muito mesmo, minha querida - disse ele.
- O comportamento dos convidados desta noite no foi o que eu esperava de 
um jantar no castelo.
- Estou contente de que tenha me trazido, papai.
- Notei a expresso de seu rosto, quando deixou a sala de jantar - 
respondeu sir Robert. - Mas deve compreender que a maioria dos jovens 
gosta de fazer algumas loucuras, de vez em quando, e creio que Fergus 
nunca tivera dinheiro para isso, at agora.
- Ao contrrio! - disse Farica, com firmeza. - Creio que o velho conde 
passou anos pagando suas dvidas.
- No posso entender por que voc presta ateno aos mexericos dos 
criados! - replicou sir Robert, bruscamente.
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- No so s os criados que falam - argumentou Farica.
- Deve saber que todos os nossos amigos que moram nas redondezas 
comentavam a respeito de Fergus Brooke, mesmo antes de ele herdar o 
ttulo.
Depois de uma pausa, sir Robert disse:
- Obviamente, do que ele precisa  de uma mo feminina que o oriente, 
levando em considerao que ele tomou posse de um ttulo importante 
inesperadamente e herdou uma das casas mais magnficas de todo o pas.
Farica queria retrucar, dizendo que, conforme Annie comen tara, ele 
estava cuidando muito mal do castelo. Mas sabia que tal afirmao iria 
aborrecer seu pai e, aps um momento, declarou
- Creio, papai, que o conde precisa amadurecer e tornar-se mais 
responsvel, antes de pensar em casar-se.
O pai voltou-se para olh-la, mas o Sol j havia se posto, o entardecer 
havia sido sucedido pela noite e as estrelas estavam altas no cu; no 
havia claridade suficiente para iluminar o interior da carruagem, e foi 
impossvel para seus ocupantes enxergarem um ao outro.
- O conde est impaciente para se assentar e pretende se casar sem um 
longo noivado - disse sir Robert, aps um longo silncio.
Farica pensou consigo mesma que o verdadeiro motivo era que ele queria 
administrar o dinheiro dela, j que estava difcil viver de modo to 
extravagante sem a fabulosa renda que os condes de Lydbrooke possuam 
antes da guerra.
Todos os proprietrios de terras do pas tinham o mesmo problema; seus 
arrendatrios no podiam pagar os aluguis, os fazendeiros estavam indo  
falncia e os trabalhadores estavam  mngua, com salrios muito baixos.
Ela sabia tambm que o falecido conde havia ficado contente por no ter 
muitas propriedades em Londres.
- O que importa para os Brooke  o campo - ele lhe havia
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dito uma vez, quando examinaram os mapas da propriedade, que estavam
pendurados na chamada "sala das armas".
- Sempre me agradou o fato de papai querer morar no campo - respondera 
Farica.
O conde colocara a mo no ombro dela, dizendo:
-  uma atitude sensata de sua parte. Quando se casar, escolha um homem 
que saiba cavalgar bem e cujos ces lhe obedeam. E tambm que tenha o 
gado sempre bem alimentado. - Deu um sorriso e prosseguiu: - Se cuidar 
bem dos ces e do gado, saber cuidar daqueles que trabalham para ele e 
tambm de sua esposa.
Farica, na poca, tinha apenas quinze anos e dera uma risada, mas as 
palavras do conde permaneceram em sua memria e agora ela conclua que o 
novo conde e seus amigos jamais ficariam  vontade no campo. Eram gente 
da cidade e era l que deviam ficar.
Continuaram a viagem em silncio, passando em frente aos chals que 
margeavam os magnficos portes da propriedade. Aproximaram-se da praa 
onde ficava a estalagem Fox and Goose e onde se hospedava o homem que 
dizia chamar-se John.
Impulsivamente, Farica perguntou ao pai:
- Quando o visconde foi morto, em Waterloo, por que no trouxeram seu 
corpo para ser enterrado no jazigo da famlia?
Embora no pudesse ver o rosto do pai na escurido, ela teve a impresso 
de que ele se surpreendera com a pergunta.
- A resposta para isto : eu no sei - respondeu ele. -  comum que o 
corpo de uma pessoa to importante quanto o visconde seja trazido para 
casa com todas as honras militares, mas, nesse caso, como o conde estava 
muito doente, talvez esse costume tenha sido negligenciado e acharam mais 
conveniente enterr-lo na Frana. - Passando um tempo, ele acrescentou: 
Muitas vezes pensei em trazer o corpo de Rupert para c, mas o capelo do 
regimento me assegurou que estava sepultado no adro da igreja, junto aos 
corpos de seus camaradas, e no me pareceu certo perturbar os mortos.
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Farica tomou a mo do pai entre as suas, pois sentira a dor expressa na 
voz dele e sabia o quanto lhe doa falar da perda do nico filho.
Mais tarde, j na cama, comeou a raciocinar que era muito estranho que, 
se o visconde Brooke estivesse morto como todos acreditavam, no 
estivesse descansando junto a seus ancestrais na igreja da vila.
Ali estavam sepultados vrios Brooke que haviam desaparecido em aes 
militares. Se Ivan estivesse morto, refletia ela, gostaria que seus 
restos mortais permanecessem entre os dos seus.
Deveria ter perguntado por que ele constitua uma exceo em relao aos 
outros membros da famlia. No conseguia conciliar o sono. Ficava vendo o 
conde sentado no lugar do tio,  cabeceira da mesa, na cadeira que mais 
parecia um trono, esculpida com o braso que continha as armas da 
famlia.
Depois lhe vinha  mente, to clara como se a tivesse diante de si, a 
imagem dos olhos brilhantes e dos lbios sorridentes do visconde Brooke 
no retrato escondido no armrio secreto onde Annie o colocara.
- Por que o conde teria desejado se livrar daquele retrato em especial? - 
perguntava-se, j sabendo a resposta.
Finalmente, j ao amanhecer, Farica caiu num cochilo intermitente, at 
que foi acordada pelas criadas que abriam as cortinas. Sabia que no 
aguentaria esperar at tarde para ver John e contar-lhe o que descobrira.
Enquanto se vestia, ia pensando numa desculpa para enviar um bilhete  
estalagem.
Como se o destino decidisse ajud-la, ela ouviu uma pancada sbita na 
janela. Era um passarinho que se chocara contra o vidro.
Ele ficou inconsciente por alguns instantes e teria cado na soleira, se 
uma de suas perninhas no houvesse ficado presa na trepadeira, o que o 
deixou suspenso no ar, balanando.
com uma exclamao, Farica abriu a janela e pegou a avezinha. Ela estava 
tonta, mas no morta, e Farica achou que
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havia luxado a perna, pela forma como ficara presa na trepadeira.
Segurou o pssaro com delicadeza. Era bem pequenino, talvez houvesse 
cado de um ninho no telhado. E, nesse momento, compreendeu que era a 
resposta para o problema que a preocupava.
- Est machucado, senhorita? - perguntou a criada.
- Talvez esteja. Se eu o colocar no cho, talvez no consiga voar e os 
cachorros o peguem. J sei o que fazer. vou lev-lo para o velho Abe, na 
estalagem. Ele saber o que fazer.
-  verdade, senhorita! Quando o gato de vov ficou ferido numa briga, 
ele o curou em pouco tempo.
- Traga-me uma caixa para colocar o passarinho, vamos fazer uns 
buraquinhos na parte de cima para ele respirar. vou lev-lo  vila assim 
que terminar o meu desjejum.
Assim que se vestiu, Farica desceu com o passarinho, colocou-o no hall e 
foi tomar seu desjejum com o pai.
Contou-lhe o que havia acontecido e ele concordou em que seria prudente 
levar a avezinha para Abe.
- Aquele homem certamente tem uma forma mgica de lidar com os animais - 
disse sir Robert. - Esta vila no seria a mesma, sem ele. Ouo falar de 
pessoas que vm de todas as partes do condado para pedir sua ajuda, 
quando seus animais esto doentes.
- Acho que ele  um velhinho adorvel - concordou Farica. Ordenou que o 
seu carrinho puxado pelo pnei fosse trazido
para a porta da frente. Era nele que costumava andar com sua governanta, 
quando criana, e agora o conduzia pessoalmente pelos arredores.
Colocou a caixa com o passarinho no assento ao seu lado e, tomando as 
rdeas, partiu, dizendo ao cavalario que no necessitava de seus 
servios, pois s estava indo at a estalagem.
Em menos de dez minutos, chegou l e desceu do carrinho, ansiosa, 
carregando o pssaro para o ptio dos fundos, onde esperava encontrar 
Abe.
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No se enganara. L estava ele, e John o acompanhava.
Eles estavam tendo dificuldades em persuadir um filhote de cisne a 
manter-se quieto, enquanto Abe colocava uma tala na perna dele.
Farica no os interrompeu, ficou a observ-los at que terminaram, embora 
tivesse conscincia dos olhos de John fixos nela.
O filhote de cisne foi colocado numa pequena gaiola para que no pudesse 
usar a perna machucada at que estivesse soldada. Ento Abe disse:
- E agora, senhorita Farica, vejo que me trouxe mais um paciente!
-  um passarinho que caiu do ninho e machucou a perna
- respondeu Farica. - Ele bateu a cabea contra a janela e ficou preso na 
trepadeira. Creio que sua perna no est quebrada, mas talvez seja bom 
dar uma olhada nela.
Abe pegou a caixa da mo de Farica e, colocando-a sobre os joelhos, abriu 
a tampa.
Enquanto isso, ela olhou para John e cochichou:
- Preciso falar com voc.
Ele entendeu, aquiesceu com um gesto de cabea e, atravessando o ptio, 
abriu a porta de um pequeno estbulo, grosseiramente acarpetado.
- Venha ver os cachorrinhos que nasceram esta noite, srta. Farica. Creio 
que vai gostar.
Farica aproximou-se dele rapidamente. Uma cachorra dlmata havia dado  
luz seis cachorrinhos. Enquanto olhava para eles, Farica cochichou:
- Tenho de falar com voc, imediatamente. Depois, falou em voz alta, para 
ser ouvida por Abe:
- Como so engraadinhos! Sei que pertencem ao fazendeiro Johnson. vou 
descobrir se posso comprar um. Os dlmatas de papai j esto ficando 
velhos.
- Se ele vier aqui mais tarde, vou dizer-lhe que voc quer um filhotinho 
- John disse.
Nesse momento, Abe interrompeu-os:
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- O seu visitante inesperado no est gravemente ferido, mas deve ficar 
aqui comigo alguns dias, at que cresa o suficiente para cuidar de si 
mesmo.
- Que bom! Mas acho que estou abusando de sua bondade, acrescentando mais 
um paciente aos muitos que j temos aqui.
- Para mim, nunca so demais.
Abe olhou em volta do ptio com um sorriso feliz no rosto enrugado.
- Papai manda-lhe lembranas - disse Farica. - E vir visit-lo assim que 
puder, pois no momento est muito ocupado.
- Seu pai  um homem bom, um excelente senhor de terras. O pessoal est 
feliz na sua propriedade.
Falando depressa, Farica perguntou-lhe:
- Posso roubar-lhe John por alguns minutos? Queria que ele retirasse um 
galho de rvore que caiu atravessado no caminho. Pode ser perigoso, se 
ficar preso entre as rodas do meu carrinho.
- Est muito bem, srta. Farica - disse Abe. - John est suficientemente 
forte para ajud-la.
- Estou certa disso - respondeu Farica.
Saram da estalagem e John ajudou-a a subir no carrinho. Depois 
perguntou-lhe, um tanto hesitante:
- Ser que sou muito pesado?
- Creio que no. Alm disso, no vamos muito longe.
Ele subiu ao carrinho, um pouco desajeitado, e sentou-se na beira do 
banco, como se temesse que o veculo viesse abaixo com o peso de ambos.
Farica puxou as rdeas e o velho pnei saiu sem pressa alguma; Em 
silncio, passaram pela praa da vila e chegaram  alameda que os levaria 
aos portes. Continuando pela alameda, atravessaram a abertura na cerca 
viva, dirigindo-se ao parque.
No era uma estrada regular atravs do gramado, mas o povo da propriedade 
a utilizava para chegar  vila, seguindo um caminho lateral, sem precisar 
passar pelos portes principais.
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Farica parou  sombra das rvores, abandonou as rdeas e disse:
- Voc est bem na estalagem?
- No foi para isso que voc me trouxe at aqui - replicou ele.
Os olhos dela perscrutaram o rosto dele, detendo-se na cicatriz da testa. 
Eram as mesmas feies do retrato, embora agora um pouco mais maduras.
O pnei pastava no gramado. Os nicos rudos eram o do vento nas rvores 
e o canto dos pssaros.
Farica decidiu falar:
- Acho que voc no foi totalmente franco e sincero comigo.
- O que quer dizer com isso?
- Ontem  noite, papai e eu jantamos no castelo.
Ela notou que os lbios de John se apertaram, mas ele nada disse.
- Foi uma grande festa, muito barulhenta, at um pouco turbulenta. Os 
amigos do conde que vieram de Londres no so o tipo de gente que eu 
esperava encontrar no Lyde.
- E tenho certeza de que tambm no so o tipo de pessoas com as quais 
voc deveria manter relaes. Por que seu pai a levou l?
- O conde nos convidou, e papai, como j lhe disse, est muito ansioso 
para que Fergus e eu nos conheamos melhor.
- Eu a avisei para no tomar uma deciso precipitada.
- No momento, no estou pensando em mim mesma replicou Farica -, mas na 
ambio de meu pai de casar-me com o conde de Lydbrooke.
John no respondeu e Farica sentou-se, pondo-se a observ-lo, at que,
como se ela o houvesse induzido a isto, ele perguntou:
- O que tem isso a ver comigo?
- Muita coisa, penso eu, porque Talvez esteja enganada, mas acho que
voc  a nica pessoa que pode dizer a meu
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pai que, se eu desposar o homem com o qual jantamos a noite passada, no
estarei desposando o conde de Lydbrooke.
- Do que est falando? No estou entendendo onde quer chegar.
- Creio que sabe do que estou falando - respondeu Farica, com suavidade. 
- Ontem, Annie, a velha criada, que muito o amava e que nunca o esqueceu, 
mostrou-me o seu retrato, escondido no armrio de seu pai, na sala de 
estar. Seu primo havia lhe ordenado que se desfizesse dele.
John no retrucou e ela prosseguiu:
- Estavam l tambm os retratos de sua me e de seus avs.
- Maldito! - disse John, em voz abafada. - Imagino que esteja destruindo 
tudo o que possa ser usado como prova contra ele.
- Ento voc  o conde de Lydbrooke?
- E de que me serve isso! - replicou John, numa voz amarga. - E se as 
outras pessoas forem to perspicazes quanto voc, Farica, no vou viver o 
suficiente para me gabar disso.
Farica encarou-o antes de responder:
- Por que est se escondendo? Por que no volta abertamente e diz a todos 
que est vivo, e no morto como todos pensam?  muito simples. Se contar 
a papai quem voc , lhe garanto que ele arranjar tudo, sem muitos 
problemas.
- Se voc disser a seu pai quem sou eu, ser o mesmo que assinar a 
sentena de morte dele.
- No estou entendendo. O que est dizendo?
- Por minha causa j morreram trs pessoas, e no pretendo aumentar esse 
nmero.
Farica prendeu a respirao. Ento se inclinou para a frente, juntou as 
mos e implorou:
- Por favor, explique-me isso! Conte-me o que aconteceu! Preciso saber!
John deu uma olhada em volta e disse:
-  muito perigoso que voc seja vista em minha companhia.
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Sugiro que deixe o pnei aqui e que se esconda comigo na floresta.
Desceu do carrinho e ajudou Farica a fazer o mesmo. Caminharam entre as 
rvores at encontrarem vrios troncos de rvores grandes que haviam 
cado durante os meses de inverno e que no haviam sido recolhidos.
Farica sentou-se em um deles e tirou o chapu, colocando-o no cho ao seu 
lado, consciente de que John a observava.
- Voc  muito bonita - comentou ele em voz baixa e muito jovem! No 
tenho o direito de envolv-la nisso.
- Mas j estou envolvida - replicou ela. - Como j sei uma parte da 
histria, quero conhecer o resto.
- Posso entender seus sentimentos, mas, se eu tivesse um pouco de juzo, 
iria embora imediatamente para no envolv-la numa situao que pode 
muito bem terminar em tragdia.
- No tenho medo e acho tambm que no foi uma coincidncia, e sim o 
destino que me fez encontr-lo, ontem, no local onde costumo meditar. J 
que chegamos a esse ponto, no podemos ser to fracos e voltar atrs.
John sorriu, o que, por um momento, tornou sua fisionomia mais jovem e 
animada.
- Como todas as mulheres, voc consegue virar as coisas a seu favor, por 
mais difceis que sejam. Muito bem, Farica, vou lhe contar a verdade, 
embora minha conscincia me diga que estou agindo errado.
- Preciso saber - insistiu ela.
- Eu sou Ivan Brooke - comeou ele -, e, para todos os efeitos, tornei-me
o sexto conde de Lydbrooke, com a morte de meu pai.
- Tendo admitido isso para mim, voc s precisa provar.
- Fui ferido em Waterloo - continuou ele - e, pelo que me contaram 
depois, derrubado da sela por uma bala que passou de raspo pela minha 
testa, como pode notar pela cicatriz. Fui arrastado pelo meu cavalo uma 
longa distncia, para fora do campo de batalha.
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Farica escutava-o atentamente, e ele prosseguiu:
- Isso explica por que no fui encontrado imediatamente, como aconteceu 
com os outros soldados do meu regimento. Os salteadores, que campeiam nos 
campos de batalha como urubus, roubaram o meu uniforme e tudo o que eu 
possua, enquanto eu estava inconsciente e dado por morto.
Farica soltou um profundo suspiro, mas no o interrompeu, e, depois de 
uma breve pausa, John continuou:
- Quando voltei a mim, encontrei-me em um convento, a curta distncia de 
Waterloo, onde as freiras me acolheram e estavam cuidando de mim. Elas 
eram muito boas, gentis e compreensivas, e levei algum tempo para 
perceber que havia perdido a memria.
- No conseguia lembrar-se de nada?
- No conseguia lembrar-me de nada, nem de qual era o regimento em que 
estava, ou se era um oficial ou um soldado raso.
- Quase no posso acreditar nisso! John sorriu para ela e depois 
explicou:
- O ferimento na minha testa era muito profundo. Os mdicos acharam muito 
natural que, aps tudo o que eu havia sofrido, e com as fortes dores de 
cabea que suportava, minha memria tivesse sido afetada. E porque eu sou 
ingls, batizaram-me de John. - Ele se interrompeu e soltou uma risada. - 
Na verdade, deviam ter o dom da clarividncia, porque, como deve saber, 
Ivan  somente uma variante de John, assim como lan e Sean.
- No sabia disso - respondeu Farica -, mas acho muito interessante. 
Continue.
- Quando os outros pacientes ingleses foram dispensados e enviados para 
casa, continuei l, porque achavam que eu ainda no estava completamente 
curado para ser solto no mundo. Ficaram tambm os franceses que estavam 
gravemente feridos e que parecia que jamais teriam alta. - Ele sorriu de 
novo e continuou: - Creio tambm que as freiras me consideravam
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til, porque eu era alto e forte e podia carregar coisas para elas, 
transportar pacientes que no podiam caminhar e ajudar numa srie de 
pequenas tarefas.
- E depois, o que aconteceu?
- Os mdicos insistiram em que eu devia descansar, levar uma vida calma a 
fim de dar uma chance para a minha memria voltar. Ento, de repente, 
comecei a me lembrar de algumas coisas.
- Do que se lembrou primeiro?
- Do lago. No conseguia me lembrar de onde ficava, mas podia ver 
claramente os cisnes que nadavam por baixo da ponte, perto da margem onde 
eu costumava pescar trutas.
- E qual foi a prxima coisa que lhe veio  memria?
- A prxima lembrana, o que no me surpreendeu, foram os estbulos e 
principalmente a baia onde ficava o meu garanho. E, quando consegui 
lembrar-me do nome dele, foi uma festa para todo o convento.
Farica riu.
- Como era o nome dele?
- Furaco! - respondeu John, e ambos caram na risada.
- Demorou bastante tempo - continuou ele -, porque eu ficava revendo na 
minha mente lugares onde estivera e que tinham um significado especial 
para mim.
- Voc no via pessoas?
- A princpio, no. At que, um dia, apareceu na minha mente o retrato de 
minha me e eu a reconheci.
- O retrato que eu vi ontem  noite, escondido no armrio secreto!
- Esse mesmo! Havia outros retratos dela no castelo, mas esse era o meu 
favorito.
- E depois, lembrou-se de quem voc era?
- Levei mais quatro dias para recordar-me de que era um visconde, que meu 
nome era Ivan Brooke e que estava no regimento de cavalaria.
- Deve ter sido muito emocionante!
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- De fato, foi uma grande emoo. Minha temperatura oscilou. Colocaram-me
na cama e me fizeram ficar quieto. Parece que tive uma espcie de 
distrbio cerebral. A verdade  que no me lembro de quase nada do que 
aconteceu naquele perodo, que durou cerca de uma semana.
- E quando melhorou, o que aconteceu?
- Falei com o padre responsvel pelo convento, um velhinho muito bondoso 
e compreensivo. Pedi-lhe que escrevesse a meu pai, dizendo-lhe que eu 
estava vivo e explicando-lhe por que no pudera entrar em contato com ele 
antes.
- No pensou em voltar para casa sozinho?
-  claro que sim, mas eles no me deixaram partir! O mdico disse que eu 
ainda no estava bem recuperado para enfrentar os rigores da jornada. 
Alm disso, eu ainda tinha aquelas terrveis dores de cabea que me 
deixavam enfraquecido e aptico. Resolvi obedecer-lhes.
- Creio que fez bem.
- Na verdade, acho que no foi bom. O padre escreveu a carta para meu pai 
e endereou-a ao conde de Lydbrooke.
- Quando foi isso?
- No final de janeiro - respondeu ele, e Farica empalideceu.
- Mas nessa poca seu pai j estava morto!... O corpo foi enterrado 
poucos dias antes do Natal. Recordo-me de como foi triste para a 
famlia... O que poderia ter sido uma alegre comemorao foi somente um 
dia de lgrimas e lamentos.
- Sim, ele morreu antes de a carta do padre chegar confirmou John.
- Mas como a carta estava endereada ao conde de Lydbrooke, imagino que 
seu primo Fergus deve t-la aberto.
- Tambm presumo que foi exatamente o que aconteceu - concordou John.
- E ele respondeu?
John enrijeceu-se por alguns instantes e depois disse, com a voz 
carregada de horror:
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- Ele enviou um homem para me matar!
Farica fitou-o, incrdula, depois perguntou, com voz trmula:
- Est dizendo que ele... ousou enviar um homem para. mat-lo?
- S no o conseguiu por milagre. Eu estava melhor e as irms passaram a 
me ver como um homem, no como um pacient. Fui transferido para um 
prdio separado do edifcio principal do convento, onde dormiam outros 
dois homens, que haviam entrado como pacientes. - John fez uma pausa 
antes de prosseguir: - Devo explicar que o convento era usado 
regularmente como um tipo de hospital, naquela regio da Frana. Em 
janeiro, quando eu esperava notcias da Inglaterra, compartilhava com um 
fazendeiro o que no era mais do que uma cabana. Ele sofrera um corte 
muito profundo na perna, provocado por uma foice. Havia tambm um 
rapazinho de quinze anos que tinha quebrado o brao ao cair de uma 
rvore. Eram timas pessoas e eu aprimorei meu francs conversando com 
eles.
- E depois, o que houve?
- Uma noite, o fazendeiro com a perna ferida comeou a sangrar em 
profuso e eu pensei que se houvesse rompido uma artria. Vesti-me 
rapidamente e dirigi-me ao convento,  procura da freira de planto. - 
Fez uma pausa e depois explicou:
- Sempre havia uma delas rezando na capela, e  claro que eu estava 
proibido de me aproximar das celas onde elas dormiam. Era um longo 
caminho, at a capela, e no encontrei a freira de planto. Fiquei 
sabendo mais tarde que ela havia sido chamada para atender uma velha irm 
que havia sofrido um ataque do corao. - John olhava para a frente, mas 
parecia no estar fixando o olhar em nada; apenas enxergava o passado. - 
Fiquei l, esperando, em dvida, no sabendo se deveria voltar e tentar 
deter a hemorragia do meu colega de quarto ou se procurava encontrar uma 
das freiras mais velhas, mais competentes como enfermeira.
- E o que fez?
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- Quando j estava ficando desesperado, a freira voltou. Expliquei-lhe o 
que estava ocorrendo, e ela foi buscar a irm que cuidara de mim. Esta 
demorou um pouco a se vestir e pegar as ataduras para atender o paciente. 
Samos das clausuras pela porta do convento. Quando nos aproximamos da 
cabana, senti cheiro de fumaa e disse para a freira que caminhava a meu 
lado: "Sente cheiro de fumaa? Algo deve estar queimando". "No se acende 
fogo, nesta parte do convento", replicou ela. Estava muito frio e pensei 
que estivesse imaginando coisas. Ento, de repente, atravs de uma das 
janelas, vi a inconfundvel luz das chamas e soltei um grito de horror. 
Corremos para a cabana, mas era tarde demais. O teto, feito de palha, j 
havia rudo, e no houve jeito de salvar ningum.
- Por que achou que o fogo s destinava a voc? - perguntou Farica.
- Mais tarde, quando fizeram uma investigao e o padre interrogou todo 
mundo para saber como tinha comeado o fogo, descobriu-se, por meio da 
freira responsvel pelo porto do convento, que um homem tinha perguntado 
se havia algum no convento com o nome de Ivan Brooke. Ele devia ser 
ingls, porque falava francs muito mal. "Desejo falar com Ivan", havia 
dito ele. J era tarde da noite e a freira respondeu: "Creio que no ser 
possvel v-lo, a esta hora to avanada". "Onde est ele?", perguntou o 
homem. "Ele no est aqui", informou a freira. "Esta parte do convento  
s para mulheres, homens no so admitidos aqui." Mas o desconhecido foi 
to persistente que ela acabou lhe contando que Ivan estava alojado numa 
cabana de madeira com telhado de sap, do outro lado do terreno do 
convento. Prometeu tambm que no dia seguinte arranjaria para ele ir 
visit-lo. "Agora  muito tarde", disse ela. "Os visitantes devem vir no 
horrio determinado, que  das duas s quatro horas da tarde." "E acha 
que conseguirei ver o senhor Ivan Brooke?", insistiu o homem. "Arranjarei 
para que venha visitlo na sua cabana", respondeu a freira, "mas venha 
falar comigo
57
antes." Ele prometeu assim fazer, mas  bvio que no dia seguinte no 
apareceu.
- E voc acha que ele ateou fogo de propsito no local onde sabia que
voc estava abrigado?
- A princpio, no cheguei a essa concluso. S depois que ele no deu
sinal de vida  que comecei a achar tudo muito estranho. Ento, dois dias
depois, quando soube que havia matado o homem errado, o ingls voltou.
- E o que fez?
- Como a cabana havia sido totalmente incendiada, eu no podia mais 
pernoitar l. As freiras me levaram de volta para o convento. Todos esses 
acontecimentos trouxeram de volta a minha dor de cabea e a febre. As 
freiras insistiram para que eu descansasse, mas, como eu me sentia 
sufocado na pequena cela que me destinaram, consegui persuadi-las a me 
deixarem ficar no pequeno jardim, no ptio das clausuras, onde podia 
tomar sol. - Ivan fez uma pausa e depois prosseguiu: - L fazia muito 
frio, as noites eram geladas, mas, durante o dia, logo aps o almoo, 
havia um pouco de sol e era delicioso, desde que a gente se protegesse do 
vento cortante. "Voc no deve ler", havia dito a freira que tomava conta 
de mim. "Feche os olhos e tente dormir. O ar fresco lhe faz bem, mas no 
deve se cansar." Prometi que seria obediente e me acomodei 
confortavelmente, pensando na minha casa e nas belas rvores do parque, 
cobertas de geada, brilhando ao sol. Lembrei-me tambm de que, quando o 
gelo estava firme o suficiente para suportar meu peso, eu costumava 
esquiar no lago. De sbito, senti frio. Sabia que no podia pegar 
friagem, porque isso pioraria o meu ferimento, e j havia me levantado 
quando entrou na clausura um homem que fora trazido ao convento com a mo 
infeccionada devido a uma mordida de cachorro.
"Est saindo? Estava justamente pensando que deve estar muito confortvel 
aqui", ele me disse. "Estou s indo buscar um casaco", respondi, "e 
talvez um cobertor para me enrolar. Sinto frio." "you manter o seu 
assento aquecido at voc
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voltar", disse ele, com uma risada. Sentou-se na cadeira, colocou os ps 
na banqueta e recostou a cabea na almofada. "Isso  que  vida! Preciso 
de um descanso", comentou. "Aproveite o mximo at eu voltar. No 
demorarei." Minha cela ficava bem distante. Quando cheguei l, encontrei 
um jornal que as freiras costumavam me dar, pois sabiam que eu estava 
muito interessado nos acontecimentos mundiais, principalmente nas 
negociaes entre Wellington e os franceses.
- Compreendo - murmurou Farica.
- Li os jornais antes de pegar um casaco e um cobertor para colocar sobre 
os joelhos. E, quando voltei s clausuras, descobri que meu inimigo tinha 
atacado de novo.
- O que aconteceu? - perguntou Farica, com a respirao suspensa.
- O homem que estava sentado no meu lugar tinha sido morto com um golpe 
de adaga, uma adaga fina e comprida como um estilete. A distncia, pensei 
que estivesse dormindo. Mas" quando retirei o cobertor que o cobria, 
dizendo: "Vamos, acorde,  minha vez de descansar", vi a mancha escarlate 
na frente de sua camisa e gritei por socorro.
- Tem certeza de que foi mesmo o ingls? - perguntou Farica.
- Uma segunda investigao revelou a verdade - respondeu John. - Ele 
tinha vindo at o porto do convento, explicado  freira de planto que 
no pudera retornar para ver-me como havia prometido dois dias antes e 
pareceu ficar horrorizado quando ela lhe falou do incndio. "O sr. Brooke 
est morto?", perguntou ele. "No, ele teve sorte. No estava no local, 
quando aconteceu o fato", explicou a freira. "Creio que est descansando 
nas clausuras. Devo perguntar se pode v-lo? " "Seria muita gentileza de
sua parte", ele falou. "Sabe que  necessrio obter permisso para entrar
no convento e ver o sr. Brooke?", a freira lhe disse ento. " claro, e
lhe agradeo muito", respondeu o homem. Ela deixou o porto, dizendo-lhe
que esperasse
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do lado de fora at que voltasse, e correu para a sala da madre
superiora, que era um pouco distante.
- E, quando voltou, o ingls havia conseguido entrar! exclamou Farica.
- Ela havia confiado nele - explicou John -, no trancando o porto e 
fechando-o simplesmente.
- E o que aconteceu?
- O porto ainda estava fechado, mas no havia sinal do homem.
- E um homem. que deveria ser voc. estava morto nas clausuras.
- Ele foi atingido no peito e deve ter morrido instantaneamente.
- Essa  a histria mais terrvel que j escutei - disse Farica. - Mas o 
que voc pode fazer? Certamente existe algum a quem apelar.
- Se eu fizer isso, h toda a probabilidade de que seja assassinado 
imediatamente - replicou John. - Alm disso, posso levar quem tentar me 
ajudar a ser morto da mesma maneira.

CAPTULO IV

Por um momento, Farica ficou pensativa, em silncio. Depois perguntou:
- Que horas so?
John tirou um relgio barato do bolso do colete e mostrou-lhe.
- Quase dez e meia. - disse ela. - Falei a papai que levaria o passarinho 
para Abe e que depois o encontraria na igreja para o culto das onze 
horas.
John sorriu.
- Esqueci-me de que hoje  domingo.
- No haver muita gente na igreja - comentou Farica -, pois hoje em dia 
somente os velhos aldees a frequentam. Ento ela se sobressaltou. - Mas 
so exatamente essas pessoas que se lembraro de voc! Portanto, vai 
precisar ser muito, mas muito cuidadoso para no ser visto!.
- Sei disso - retrucou John. - Como deve imaginar, estou pensando no que 
posso fazer, mas ainda no encontrei um caminho.
- Voltaremos a conversar sobre isso. Vamos nos encontrar como combinado, 
na clareira da floresta, assim que conseguir me liberar.
- Sei onde fica. Fui l ontem  noite para me certificar do lugar.
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Farica colocou o chapu na cabea e amarrou as fitas debaixo do queixo,
dizendo:
- Agora que sei quem  voc, vou rezar com muito fervor para que recupere 
o lugar que por direito lhe pertence.
- Se as preces de algum forem atendidas, tenho certeza de que sero as 
suas.
Ela lhe lanou um sorriso de satisfao e depois correu na frente dele, 
de volta para o carrinho puxado pelo pnei.
Achou mais prudente deixar lohn caminhar sozinho para casa. Ao v-lo sair 
na sua frente, atravessando o campo e abandonando a alameda, pensou na 
terrvel posio em que ele se encontrava e rezou para que Deus lhe 
mostrasse o caminho sem mais perdas de vidas.
Nem por um momento abandonou a certeza de que Fergus Brooke lutaria como 
um tigre para no perder a posio que sempre cobiara.
Era inacreditvel que um homem planejasse matar o prprio primo. No 
passado, ouvira muitas histrias sobre Fergus e no lhes dera ateno por 
consider-las exageradas, mas agora estava inclinada a acreditar na 
veracidade delas.
Bastava pensar na festa da noite anterior para estremecer. O mesmo 
acontecia ao se lembrar de Annie contando a respeito das muitas peas 
valiosas do mobilirio destrudas pelos visitantes que o novo conde 
convidava para o castelo.
"Isso tem de acabar!", pensou.
Pediu a um cavalario para que levasse o carrinho do pnei de volta a 
casa para que pudessem voltar na carruagem aberta do pai.
Enquanto caminhava pela ala lateral da igreja, viu o pai sentado no banco 
de madeira esculpido, que, por tradio, pertencia aos proprietrios do 
lugar.
Sir Robert sorriu para a filha, pensando que ela era muito bela, 
justamente a pessoa certa para ser a condessa de Lydbrooke.
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Farica ajoelhou-se e rezou com todo o fervor de seu corao por Ivan. 
Sentiu que sua me a estava ajudando, dizendo-lhe que no final tudo daria 
certo.
Quando o servio religioso terminou, ela e o pai voltaram para a manso.
- Creio, minha querida, que nenhuma condessa de Lydbrooke poderia ser 
mais bela do que voc - sir Robert disse.
- E sei que muitas delas foram beldades notveis.
- O senhor me lisonjeia, papai, mas, como sabe, no tenho pressa de me 
casar. Sou muito feliz vivendo em sua companhia, e ainda temos tantas 
coisas a fazer juntos.
- Por outro lado - replicou sir Robert, calmamente -, antes de morrer 
quero v-la bem estabelecida, numa posio que deixaria sua me 
satisfeita.
Ele havia falado em tom solene, mas Farica deu risada.
- Isso me d ao menos vinte ou trinta anos de prazo. No tenho pressa de 
entrar na igreja vestida de noiva, papai.
O pai franziu o cenho, mostrando-lhe que estava disposto a contrari-la. 
Ento, ela passou o brao no dele e disse:
- No vamos falar de tristezas. Vamos nos divertir, que  melhor.
- Vamos tentar - concordou sir Robert. - Alis, voc no se esqueceu de 
que tenho de me avistar com o administrador, esta tarde, no ? Sei que 
domingo  um dia inconveniente, mas ele me mandou o recado de que  
extremamente importante que conversemos o mais breve possvel.
- Alguma coisa errada?
- Tenho o pressentimento de que o assunto diz respeito  propriedade de 
nosso vizinho - respondeu o pai secamente. - Aps tomarmos ch juntos, 
estarei em condies de inform-la melhor.
Quando Farica conseguiu escapar do priorado, j eram quase trs horas da
tarde. Havia ordenado que Pgaso estivesse pronto, esperando-a no
estbulo.
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Pulou na garupa dele, vestida do jeito que estava, e cavalgou em direo 
 floresta.
Isso no surpreendeu os garotos que tomavam conta dos estbulos nem os
velhos cavalarios. Estavam acostumados a v-la cavalgar. Apenas ficaram
a olh-la enquanto se afastava, admirando-lhe a elegncia.
Quando chegou ao campo, Farica segurou as rdeas, diminuindo a marcha 
para passar pelos caminhos estreitos que conduziam  clareira.
Como pensava, Ivan j estava l, esperando por ela. Tirou-a da sela, 
segurando-a um pouco de tempo mais do que o necessrio antes de pous-la 
no cho.
- Voc parece uma deusa do Olimpo, vindo na minha direo - disse. - 
Admira-me que no tenha chegado voando.  muito prosaico aparecer
cavalgando.
- Pgaso  um cavalo mgico. No ouse duvidar disso!
-  claro! Como pude pensar diferentemente? - concordou Ivan.
Ambos riram e, em vez de se sentarem no tronco de rvore, acomodaram-se
na grama, ao lado um do outro. Ivan recostou-se numa rvore.
- Estive pensando em voc e no que podemos fazer - disse Farica.
- No tem nada de "ns" - replicou ele. - No vou permitir que arrisque a 
sua vida. Deve deixar que eu lute sozinho.
Aps um momento de silncio, ela o enfrentou:
-  a minha luta tambm.
Ele permaneceu calado. Ento, Farica declarou: - Estava pensando se 
existe algum no castelo em quem possamos confiar, um criado que o 
conhea bem e que nos informe o que o seu primo est tramando. Algum que 
no o trair.
- Um espio no campo de batalha! - exclamou Ivan, quase sem respirar.
- Isso tornaria as coisas mais fceis.
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Ivan ficou em silncio por alguns segundos e depois disse:
- H um homem, se  que ainda est l, que sei que seria totalmente leal 
a mim em quaisquer circunstncias.
Quem  ele?
- Foi meu pajem desde que eu era criana e ficou desesperado por no 
possuir altura suficiente para alistar-se comigo na cavalaria.
- Como se chama?
- Seu nome  Hagman, e agora deve estar com uns trinta e cinco anos.
- vou tentar encontr-lo - prometeu Farica.
- No! - disse Ivan, com firmeza.
- Prometo que no farei nenhuma besteira. Tambm acho importante que 
saibamos de mais coisas do que j sabemos agora. - Fez uma pausa e 
prosseguiu: - Seu primo deve ter escolhido algum para cmplice, talvez 
muitas pessoas. Um deles seria o homem que tentou mat-lo na Frana.  
muito pouco provvel que esse homem tenha atravessado o canal da Mancha 
sozinho. Papai sempre diz que ladres, trapaceiros e assaltantes agem 
sempre em grupo, para maior segurana.
- Acho que tem razo - concordou Ivan. - Por outro lado, Farica, estou 
apreensivo por voc e no quero que arrisque um s fio de cabelo de sua 
preciosa cabea por mim.
- Creio que, se existe uma pessoa a quem o seu primo no mataria, sou eu 
- disse Farica, em voz baixa.
- Sim,  lgico! - admitiu Ivan. - Mas, se alguma coisa de ruim vier 
acontecer a seu pai ou a algum de quem voc gosta, nunca me perdoarei.
- E eu nunca o perdoarei se voc permitir que eu seja obrigada a casar 
com um homem que  um impostor, um indivduo fraudulento, um assassino.
Farica se expressara com violncia, e Ivan estendeu a mo, tomando a 
dela.
- Juro-lhe que vou impedi-lo de casar-se com voc, mesmo que isso me 
custe a vida.
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- Obrigada, era isso que eu queria ouvir. Fico apavorada s de pensar.
Conversaram mais um pouco, at que Farica lhe disse que precisava ir.
- Papai est me esperando para o ch, e ele no deve nem de longe 
suspeitar que eu esteja fazendo algo mais do que simplesmente cavalgar.
- Sabe que eu desejo v-la novamente - Ivan disse -, mas, como  muito 
perigoso, no deve vir aqui, a menos que tenha uma coisa realmente 
urgente a me dizer,
- E voc? - indagou ela.
- Virei aqui todas as tardes, neste mesmo horrio, na esperana de que 
aparea alguma coisa urgente.
- Tenho certeza de que haver - disse ela, com otimismo. Nesse momento, 
fitou os olhos dele, muito azuis, que estavam
fixos nos seus, e teve a sensao de que ele iria beij-la. Encabulada, 
voltou-se rapidamente para Pgaso. Ivan ergueu-a para sent-la na sela, 
dizendo:
- Cuide-se. Estou envergonhado e humilhado por ter ousado envolver uma 
pessoa to maravilhosa e especial como voc nessa sujeira toda.
- No deve colocar as coisas desse modo. Pense nisso como numa luta, ou 
melhor, numa cruzada, do certo contra o errado, do bem contra o mal, e 
que precisa vencer.
Por um momento, ele ficou meio enfeitiado por estas palavras. Depois, 
voltou-se para ela e disse abruptamente:
- Se eu no puder corresponder s suas expectativas, irei embora.
- Nenhum homem digno deste nome abandonaria a sua prpria gente - 
replicou Farica. - Voc no est lutando por si mesmo, est lutando pelos 
velhos criados despedidos aps muitos anos de lealdade e pelos 
trabalhadores da propriedade que foram mandados embora sem nem sequer uma 
penso. Alis, esqueci de lhe dizer que os Prosper foram obrigados a 
desistir da fazenda deles.
- Os Prosper! No posso acreditar! Eles esto l h geraes!
- Eu sei, mas seu primo no quis ajud-los, e, como acontece com muitos 
fazendeiros, esto praticamente arruinados.
- Maldito! - exclamou Ivan. - vou desmascar-lo e colocar as coisas nos' 
devidos lugares, mesmo que isso me custe a vida.
Farica estendeu-lhe a mo.
- Esteja aqui amanh de manh. Tentarei mandar Hagman at voc, mas eu 
no poderei vir.
- Por que no?
- Seu primo vai almoar conosco e eu prometi sair a passeio com ele 
depois.
- No deve fazer isso! - disse Ivan, irritado. - Precisa ter juzo 
suficiente para dizer isso a seu pai.
- No seja tolo! - respondeu Farica. - S assim afastaremos qualquer 
suspeita que ele possa ter. E o pegaremos desprevenido.
Havia mgoa nos olhos de Ivan, quando declarou:
- Perdoe-me, estou bancando o idiota, mas no posso suportar a ideia de 
que voc, to bela, doce e inocente, entre em contato com um homem como 
Fergus. Ele  mau e no momento no tenho meios de proteg-la.
- S o fato de voc estar aqui me faz sentir que estou protegida. Sei 
tambm que nossa luta, para todos os efeitos,  uma guerra santa, a qual, 
com a ajuda de Deus, venceremos.
Farica falou de modo to comovente que Ivan, segurando-lhe a mo, fitou-a 
por um momento e beijou-a no rosto. Ela sentiu um tremor percorrer-lhe 
todo o corpo.
Depois, ele se despediu:
- V, Farica, enquanto tenho foras para solt-la. E, pelo amor de Deus, 
cuide-se.
Ela sorriu e, puxando as rdeas de Pgaso, voltou pelo mesmo
67
caminho por onde viera, atravs da floresta, passando pelas alamedas 
cheias de curvas e cobertas de musgo, at atingir o parque do lado 
oposto.
Farica fez seus planos cuidadosamente. Na manh seguinte, logo cedo, 
sabendo que os convidados do conde ainda estavam dormindo, aps uma longa
noite de bebida e dissipao, dirigiu-se para a porta lateral do castelo.
L chegando, um criado recebeu-a, surpreso.
- Quero falar com Annie - disse ela. - Por favor, pea-lhe para vir at
aqui, pois no quero largar o meu cavalo.
O criado saiu imediatamente e alguns minutos mais tarde chegou Annie, 
apressada, pelo corredor, a touca de babados um pouco torta na cabea, o 
avental branco recm-engomado e muito limpo.
- Senhorita Chalfont, o que faz aqui a esta hora da manh?
- No vim fazer uma visita social ao conde - respondeu Farica. - S vim 
aqui perguntar se voc encontrou um anelzinho no lavatrio do quarto onde 
estive aquela noite.
- No, senhorita! No encontrei nada e as criadas no me informaram se 
encontraram alguma coisa, quando fizeram a limpeza. - Depois acrescentou: 
- A dama que estava ocupando aquele quarto voltou para Londres ontem  
noite.
- Ontem  noite! - repetiu Farica, surpresa.
- Houve um ligeiro desentendimento com uma outra dama do grupo - 
continuou Annie, baixando a voz. - Pude perceber que brigavam por causa 
do conde, e a dama do quarto do rei Charles II sentiu-se ofendida.
Farica a escutava curiosa e ela prosseguiu:
- No fim, tive de fazer suas malas de uma hora para outra e ela partiu 
acompanhada de um outro cavalheiro. Mas, se quiser saber a minha opinio 
- acrescentou, baixando ainda mais a voz at seu falar se reduzir a um 
sussurro -, ela no ir longe. Estar de volta hoje mesmo. com tudo o que 
o senhor conde j lhe deu, pode muito bem aguentar alguns desaforos.
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Farica pensou nos rubis e desconfiou que Annie tinha razo, por outro 
lado, era exatamente isso que queria ouvir.
- Se a dama j foi embora, Annie, talvez eu possa entrar no quarto e 
tentar encontrar o anel. Era de minha me e no quero perd-lo.
-  claro, venha comigo! Ningum a ver, a estas horas, esto todos 
dormindo.
Farica desmontou de Pgaso e o garoto do estbulo correu para segur-lo.
Seguindo Annie, ela subiu as escadas. Caminharam ao longo do corredor 
principal e passaram rapidamente por uma srie de portas fechadas, at 
chegarem ao quarto do rei Charles II.
Ao entrarem, Farica notou que o aposento no fora arrumado aps a partida 
de sua ocupante e que estava numa desordem total.
Foi at o lavatrio e deixou cair o pequeno anel de ouro do dedo mnimo
da mo esquerda.
- Oh, aqui est! - exclamou ela. - Debaixo da saboneteira.  to pequeno 
que no me surpreende que no tenha sido encontrado.
- Estou contente de que o tenha encontrado - disse Annie.
- Deveria ser mais cuidadosa com suas jias. As coisas esquecidas nesta 
casa frequentemente desaparecem.
Farica sabia o que ela estava insinuando e, olhando para a porta para 
verificar se estava fechada, perguntou:
- Ainda est aqui um criado chamado Hagman? Ou j foi embora?
- Oh, no, senhorita. O sr. Hagman ainda est aqui e sempre repetindo que 
est muito desgostoso com as mudanas que aconteceram com a morte do 
velho conde.
- Soube que ele era o pajem do visconde - disse Farica.
- Sim,  verdade. Ele fala no senhor Ivan o tempo todo.
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No conseguia acreditar, quando soube que o visconde foi morto em 
Waterloo.
- Deve ter sido muito triste para ele. - Farica fez uma pausa e depois 
perguntou: - Ser que eu poderia ter uma conversa com o sr. Hagman? Um 
dos oficiais colegas do visconde contou a meu pai uma coisa que ele 
gostaria de saber.
- Estou certa de que o sr. Hagman ficaria satisfeito, ao ouvir coisas do 
passado - replicou Annie.
- Ento posso falar com ele?
Annie pensou por um momento e depois respondeu:
- Se deseja v-lo, vou pedir-lhe para vir aqui. Ento eu os levarei at a 
porta lateral, e pode acreditar que o conde no ficar sabendo de nada.
- Obrigada, Annie. Sabia que poderia confiar em voc.
- Sente-se um pouquinho, volto o mais rpido possvel prometeu a criada, 
fechando a porta atrs de si.
Farica sentou-se e comeou a observar a desordem deixada pela mulher dos 
rubis. Uma atitude inaceitvel para uma dama como era sua me ou como 
fora a falecida condessa.
Havia p facial derramado em toda a superfcie da pentea deira. As 
flores, a alfineteira e a bandeja de grampos haviam sido amontoadas num 
canto para dar lugar a um grande espelho que estava todo manchado de 
batom.
Havia grampos de cabelo espalhados pelo cho, um pente com alguns dentes 
faltando e tambm bolas de algodo manchadas de ruge e de sombra para os 
olhos.
No era uma viso agradvel, e Farica preferiu ir at a janela para dar 
uma espiada no lago.
Lembrou-se de que Ivan lhe dissera que a imagem do lago fora a primeira 
coisa a voltar  sua memria: os cisnes nadando, o lugar na margem onde 
ele costumava pescar trutas. Podia entender que tais recordaes fossem 
to preciosas para ele.
Disse a si mesma que as coisas precisavam se endireitar. Ivan
70
tinha de recuperar o castelo, os seus domnios, e cuidar das pessoas que 
nele confiavam.
A porta se abriu e ela se virou depressa para defrontar-se com um 
homenzinho magro, mas vigoroso, de cabelos ralos e olhos inquisidores, 
que se aproximou e disse:
- Sou Hagman, senhorita. Soube que queria falar comigo.
- Sim, Hagman.
Farica ficou pensativa por alguns instantes. Ivan estaria certo em 
confiar sua vida, pois era disso que se tratava, ao antigo pajem, que 
agora era empregado do seu primo?
Antes que ela comeasse a falar, Hagman disse:
- Se  sobre o senhor Ivan, daria tudo o que possuo para ouvir algo a 
respeito dele. O pior dia da minha vida foi aquele em que soube que ele 
nunca mais voltaria. Nunca imaginei que uma pessoa to cheia de vida e 
to alegre pudesse morrer to jovem. "Ora, vamos, Hagman", ele costumava 
me dizer, "por que est to melanclico? As coisas vo melhorar." - 
Hagman fez uma pausa e sua voz vacilou, quando acrescentou: - Mas no 
houve nada melhor para ele e tudo ficou pior para ns.
Farica sentiu que pessoa alguma que no estivesse sendo completamente 
sincera poderia falar daquele jeito, e lhe disse, em voz baixa:
- Tenho algo a lhe revelar. O senhor Ivan est vivo. Por alguns 
instantes, Hagman encarou-a, sem conseguir acreditar.
- O que est me dizendo, senhorita?
- O senhor Ivan est vivo e precisa desesperadamente de sua ajuda. Mas, 
por razes que ele vai lhe explicar depois, isto  segredo absoluto. No 
deve mencionar nem uma palavra a ningum, por mais que confie numa 
pessoa.
Os olhos dele, argutos, fitaram o rosto de Farica.
- Pode confiar em mim, senhorita. Prefiro cortar minha lngua fora a 
falar uma palavra que possa prejudicar o senhor Ivan.
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Farica sorriu.
- Ele me disse que podia confiar em voc. Esta  a razo pela qual quero 
que v, esta tarde, s trs horas,  floresta de propriedade de papai, 
conhecida como Floresta dos Falces. No centro h uma clareira que foi 
feita pelos lenhadores.
- Sei onde fica, senhorita - Hagman respondeu, ansioso.
- No deixe ningum saber aonde est indo. Invente uma desculpa qualquer, 
diga que vai  vila, por exemplo. E entre na floresta sem que ningum o 
veja.
- Farei isso, senhorita. - As palavras saram-lhe do fundo da alma.
- O senhor Ivan est em perigo, Hagman, em grave perigo. Por isso, tudo 
tem de ser muito secreto.
Hagman concordou com um gesto de cabea.
- Sei o que quer dizer. O perigo est a duas portas daqui
- disse ele, apontando na direo do quarto do conde.
- Ele faria qualquer coisa para impedir a volta do senhor Ivan - disse 
Farica.
-  verdade! - concordou Hagman novamente.
- Qualquer coisa! - enfatizou Farica. - O senhor Ivan est confiando em
voc e eu tambm. De voc depende a prpria vida dele. Agora, preciso ir.
Hagman abriu a porta para ela e encontrou Annie esperando do lado de fora
da porta.
Saram em silncio pelo mesmo caminho da vinda e, quando passaram pela 
porta lateral, Farica encontrou Pgaso um tanto impaciente.
O ajudante do estbulo ajudou-a a montar e Farica disse para Annie, que 
estava parada no portal:
- At logo, Annie, e muito obrigada por ter me ajudado a encontrar o meu 
anel. Detestaria perd-lo!
Acenou para ela e saiu pelos campos, o mais depressa possvel, em direo 
ao priorado.
Sir Robert, que no tinha o hbito de acordar cedo, ainda
72
estava na sala de desjejum. Quando Farica se reuniu a ele, imaginou que 
tivesse acabado de descer e nem lhe passou pela cabea que ela j tivesse 
ido cavalgar.
- Dormiu bem, papai? - perguntou ela, sabendo que ele sofria de insnia.
- Razoavelmente - respondeu o pai. - Como sabe, minha querida, tenho 
tendncia a ficar acordado, me preocupando com voc.
- No devia se preocupar tanto assim - disse Farica, sorrindo.
- Voc no esqueceu que o conde vem almoar conosco hoje, no ? - 
perguntou o pai.
No,  claro que no! Voc me meteu em uma embrulhada, quando concordou 
em que eu sasse a passeio com ele. Sabe que prefiro passear com voc.
- Faremos isso amanh - prometeu o pai. - Hoje quero ver se consigo 
reabrir a antiga mina de ardsia, assim darei emprego a mais alguns 
homens.
Quando se levantou para sair, Farica passou por ele, inclinando-se para 
beij-lo na testa, e disse:
- Eu amo voc, papai! No existe ningum to bom nem to compreensivo 
quanto voc; j no se pode dizer a mesma coisa de nosso vizinho.
- Vai ter de falar com ele sobre isso, Farica. E, quando vocs se 
casarem, ser fcil exigir que o seu dinheiro seja gasto do jeito que 
voc deseja.
Farica pensou em dizer ao pai que ele estava sendo muito ingnuo, ao 
pensar que o conde gastaria o dinheiro dela em uma coisa que no lhe 
trouxesse gratificao pessoal. Mas sabia que tal comentrio no seria 
prudente, de modo que disse apenas:
- Sabe que tudo o que desejo  ver um grande nmero de pessoas empregadas 
novamente e removidas aquelas armadilhas perversas da floresta.
73
Isso ela estava disposta a repetir para o novo conde, depois de um almoo 
pouco  vontade, quando ele a ajudou a subir  carruagem aberta.
Era um veculo novo. Farica ficou imaginando quanto teria custado, e que 
talvez no houvesse sido pago. Tinha certeza tambm de que ele no tinha 
pagado a magnfica parelha de cavalos que o puxava.
- Finalmente, estamos a ss! No consigo conversar direito com voc 
porque h sempre algum por perto - disse o conde, quando saram.
- No consigo imaginar o que teria a me dizer que papai no pudesse 
escutar - argumentou Farica.
- Bem, primeiro quero lhe dizer que  muito bonita e me atrai muito.
Farica olhou para a frente, pensando que era isso que j esperava, mas o 
cumprimento soou vulgar e desagradvel.
- Quero falar com voc sobre a propriedade - disse ela.
- O que a propriedade necessita  de dinheiro. Mesmo com a maior boa 
vontade do mundo, no posso mandar consertar as casas, dar emprego s 
pessoas ou aumentar as penses sem recursos financeiros para isso. - Ele 
falou em tom brusco, sem conseguir se conter.
- A festa que voc deu aquela noite deve ter custado muito dinheiro.
O conde riu.
- Pelo amor de Deus, Farica! No est querendo sugerir que eu deva 
abandonar os poucos prazeres que me restam, no ? Alm disso, muitos dos 
convidados foram pessoas muito boas para mim, quando eu era pobre e sem 
importncia, e, como pode entender, agora quero retribuir a
hospitalidade deles e oferecer-lhes alguns brindes.
Farica pensou na dama dos rubis, mas engoliu as palavras que lhe vieram 
aos lbios.
Eles estavam descendo um caminho de grama macia, em direo
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 fazenda matriz, que tradicionalmente abastecia os Lydbrooke de
leite, creme, ovos, carne de carneiro e da melhor carne de vaca do pas.
O aspecto da casa da fazenda a surpreendeu: o telhado precisava de 
reparos e as janelas estavam sujas.
O conde conduziu os cavalos para a frente da casa, uma bela construo 
elisabetana, metade em madeira, com um telhado de duas guas.
Mas, em vez de Bradshaw, seu conhecido desde pequena, quem veio receb-
los  porta foi um homem moreno, magro, de ar imponente, que nada tinha 
da imagem que se esperaria de um fazendeiro.
- Boa tarde, Riggs. Soube que tem algo a me contar.
- Tenho, sim, senhor, mas  melhor entrar para escutar. O homem falava de 
modo agressivo, em tom spero, muito
diferente da forma pela qual os fazendeiros da propriedade se dirigiam ao 
pai de Farica.
- No vou descer para falar com voc! - respondeu o conde, tambm 
asperamente. - Estou levando a senhorita Chalfont para passear e no 
podemos parar.
- Sinto que no queira escutar o que tenho a lhe dizer disse Riggs 
rudemente.
- Bem, ento d a volta em torno da carruagem e fale, mas j lhe aviso, 
se for pedir dinheiro, no vou lhe dar.
Um sorriso maldoso curvou os lbios do homem, que declarou:
- O senhor vai querer pagar, quando ouvir o que tenho a lhe revelar.
- Do que se trata? - perguntou o conde, impaciente, Riggs deu a volta em 
torno da carruagem e o conde inclinou-se para que ele pudesse falar-lhe 
quase diretamente no ouvido.
Os cavalos estavam inquietos e ele precisou control-los. Depois se 
endireitou no assento de novo para Riggs.
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Farica, no querendo parecer indiscreta, virou-se para o outro lado, 
embaraada, tentando no ouvir. Mas, como possua uma audio muito 
aguda, captou a frase:
- Ele est aqui, em algum lugar. Ao que o conde ordenou:
- Encontre-o.
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CAPTULO V

O conde ps os cavalos em marcha e Farica sentiu que era muito importante
que ele no suspeitasse que ela havia escutado
sua conversa.
No meio do caminho, comentou:
- Pensei que fosse um pessoal chamado Bradshaw que trabalhasse na fazenda 
matriz.
- Eram eles, mas eu no estava contente com o servio e entreguei a 
administrao da fazenda a um homem de minha confiana - respondeu o 
conde.
-  uma fazenda to bonita. - disse Farica, procurando falar de modo 
casual.
- O mesmo se pode dizer de toda a sua propriedade.
-  verdade, a propriedade  muito bela.
Enquanto controlava os cavalos, o conde lanava um olhar de esguelha para 
Farica, como se estivesse pensando no que devia dizer.
Ela estava determinada a prestar ateno  paisagem e no o encarou at 
que ele rompeu o silncio:
- Voc sabe o que eu estou querendo lhe dizer, Farica; por isso, creio 
que  bobagem ficar fazendo rodeios.
Farica arregalou os olhos, demonstrando surpresa:
- No sei do que est falando!
- Acho que sabe - insistiu ele. - Sabe que quero me
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casar com voc o mais depressa possvel, e no vejo sentido em ficar 
esperando.
Depois de um momento, Farica respondeu:
- Por que devemos ter tanta pressa? Creio que  melhor que nos conheamos 
bem primeiro, antes de tomar esta deciso.
- J a conheo e sei que  tudo o que desejo numa mulher. Como ela no 
respondesse, ele continuou:
- Sei que voc, como todas as mulheres, est desejosa de fazer alteraes 
e melhoramentos na casa na qual moraremos, e h bastante campo para isso, 
tanto no castelo como em Berkeley Square. Estou certo de que voc 
gostaria de fazer disto uma fazenda modelo, e estou disposto a entregar 
essa tarefa a suas mos hbeis.
Fergus devia estar pensando que, se ela administrasse a propriedade, ele 
estaria livre para divertir-se em Londres, com seus amigos, tais como a 
dama dos rubis e outros convidados barulhentos que ele havia entretido no 
fim de semana.
- Tudo isso parece muito fascinante. Mas, como papai j lhe disse, no 
quero me apressar, tratando-se de casamento. Alm disso, ainda no 
apresentei minhas homenagens  Coroa Real.
- Pelo amor de Deus! Isso  realmente necessrio? perguntou o conde.
- Sei que minha me ficaria contente, se eu o fizesse respondeu Farica 
com firmeza. - Quero fazer algumas coisas que ela desejava para mim, 
antes de assumir as responsabilidades que acaba de me sugerir.
O conde franziu as sobrancelhas, como se estivesse preocupado por ter 
cometido um erro, e insistiu, em tom persuasivo:
- Vamos nos casar o mais breve possvel, Farica. Ento eu lhe darei todas 
as coisas de Londres que deseja: festas, bailes, cerimnias na Corte e 
uma centena de outras coisas.
- Voc  muito bom - murmurou ela.
- Ento se casar comigo imediatamente?
- Oh, no! No quis dizer isso! Por favor, preciso de tempo
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para pensar... Quero ter certeza de que seremos felizes, antes de sermos
marido e mulher.
Os lbios do conde se apertaram, numa linha dura de irritao, mas ele
foi suficientemente esperto para no demonstrar seu estado de esprito.
E, como havia prometido a sir Robert lev-la de volta para o ch, tomou o
caminho da manso.
Quando l chegaram, o criado ajudou Farica a descer, mas, para surpresa
dela, o conde permaneceu sentado na boleia, segurando as rdeas.
- No vai entrar? - perguntou ela.
- No. Tenho uma coisa muito importante a fazer no castelo. Por favor, 
pea desculpas a seu pai por eu no poder ficar para o ch e sugira que 
ele venha visitar-me amanh. Antes disso daremos um outro passeio que, 
espero, seja to agradvel quanto o de hoje.
Farica esteve a ponto de recusar, mas achou mais prudente mante-lo 
ocupado, assim no teria tempo de procurar Ivan, o que certamente devia 
andar fazendo.
- A que horas vir?
- Um pouco depois das duas. Daremos um longo passeio e depois 
encontraremos seu pai no castelo, s quatro horas.
- Muito bem, avisarei papai. Muito obrigada.
Farica fez uma mesura, correu escadas acima e entrou.
Era um grande alvio estar em casa. Mas ela no esquecera o que escutara 
e tinha que avisar Ivan.
Foi procurar o pai, esperando que estivesse ocupado, pois poderia 
apresentar alguma desculpa para ir  vila.
Infelizmente, sir Robert estava absorto em seus planos para a mina de 
ardsia e queria a aprovao dela.
Havia mapas espalhados sobre a escrivaninha de seu escritrio, que ele 
ficou examinando com Farica at a hora de se vestirem para o jantar.
Farica concluiu que naquela noite teria que esgueirar-se e ir at a 
estalagem avisar Ivan.
Sabia que, se Riggs estava informado da presena de Ivan
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nas redondezas, a primeira coisa que faria seria verificar em todas as 
estalagens.
S depois das dez horas, quando o pai j havia ido dormir e a empregada 
se retirara,  que ela conseguiu se vestir rapidamente e sair por uma das 
portas laterais.
Era muito tarde para pegar Pgaso. Se o fizesse, chamaria a ateno dos 
cavalarios, que fatalmente mencionariam isso a seu pai ou a algum dos 
membros da casa.
Portanto, a soluo foi atravessar o campo pelo caminho mais curto para 
chegar  aldeia.
No era muito longe, apenas uns quinhentos metros, mas, como a ideia de 
Ivan correr perigo a inquietava, pareceu-lhe bem mais longe do que o 
normal.
A caminhada no a cansou, estava acostumada a exercitar-se e havia uma 
Lua maravilhosa que lanava uma luz prateada sobre a floresta.
"Parece um pas de fadas", pensava ela, andando por entre as rvores, at 
que chegou ao cruzamento onde as diligncias paravam na sua jornada para 
Londres.
Estava tudo muito silencioso e a maioria dos chals tinha suas luzes 
apagadas.
Quando chegou  estalagem, verificou que havia luz no bar e escutou 
vozes.
Esgueirou-se rapidamente pelos fundos, temendo que Ivan houvesse se
juntado a Abe e a seus amigos no bar.
Para sua alegria, quando entrou no ptio onde Abe mantinha os animais, 
viu Ivan sentado em um banco de madeira, tendo ao colo um gato preto.
Parou por um momento, no escuro, observando-o, mas ele, como que 
pressentindo sua presena, levantou a cabea e se aproximou.
- Farca! - exclamou, num sussurro. - O que est fazendo aqui a esta 
hora?
- Precisava v-lo.
Rapidamente ele a pegou pelo brao e atravessou o ptio,
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parando em um terreno baldio, onde estavam os estbulos improvisados e
onde se encontrava seu cavalo.
Havia l tambm uma srie de galinheiros, canis e gaiolas que Abe usava
para alojar os seus pacientes.
Ivan olhou em volta para ter certeza de que ningum os poderia ouvir e 
perguntou:
- Como pde vir aqui sozinha?
- Eu tinha de vir. Se trouxesse Pgaso, certamente algum notaria a minha 
sada.
- O que aconteceu? Por que queria me ver com tanta urgncia?
Farica contou o que acontecera quando sara a passeio com o conde.
- Quem  esse Riggs? - indagou Ivan.
- No tenho a menor ideia. S sei que o jeito rude como ele falou me fez 
pensar que pode ser o homem que tentou mat-lo e que agora est 
chantageando Fergus para que ele no s lhe d dinheiro como tambm a 
fazenda matriz.
- O que no me surpreenderia - concordou Ivan.
- Mas voc precisa entender o que isso significa! - replicou Farica. - 
No pode ficar aqui.  lgico que eles vo investigar todas as estalagens 
da regio e acabaro aparecendo aqui.
Ivan suspirou.
- Tem razo.  melhor eu perguntar a Hagman onde ele acha que estarei a 
salvo.
- Hagman est aqui com voc?
- Ele veio me ver esta noite, mas achou prudente fingir que est 
visitando Abe e beber um drinque no bar primeiro.
- Quem mais est l?
- S dois homens da vila.
- Mas eles podem reconhecer voc?
- Mesmo que eles nem imaginem quem eu seja, esse Riggs vai lhes perguntar 
se viram um estranho e eles apontaro para mim.
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- vou tir-lo daqui e lev-lo para um lugar onde ficar seguro, por
enquanto.
- J lhe disse que no quero envolv-la nisso. Farica sorriu.
- J estou envolvida, voc sabe disso. Precisa chamar Hagman e dizer-lhe
para onde vou lev-lo.
- Ele deve sair de l dentro em breve.
Ivan fitava o rosto de Farica, iluminado pelo luar, mas ele falava como 
se estivesse pensando em outra coisa.
Depois voltou-se abruptamente e olhou para o porto que dava para o 
ptio. Farica teve a sensao de que ele estava prestes a dizer-lhe algo 
importante e seguiu-o, mas, quando o alcanou, Hagman j entrava no 
ptio.
Ivan fez um gesto, chamando-o para junto deles, e perguntou:
- Foram todos embora?
- Todos menos um, mas ele  muito velho e quase cego.
- No obstante, Hagman, diga para Abe vir at aqui replicou Ivan. - Pode 
dizer que um dos animais parece estar sentindo dor.
Hagman abriu a porta da estalagem e gritou:
- Abe! Um de seus pacientes est reclamando por no receber o devido 
cuidado!
- Estou indo! Estou indo! - respondeu Abe. Depois Farica ouviu-o dizer 
para algum: - V saindo, Bill!
Abe saiu da estalagem e fechou a porta atrs de si. Adivinhando que fora 
chamado por causa de Ivan e no por causa de um dos animais, dirigiu-se 
para ele:
- O que acontece? Alguma coisa errada?
-  que tenho de partir e quero agradecer sua hospitalidade e dizer-lhe 
que estarei de volta dentro em breve.
- Est partindo esta noite?
- Imediatamente. Mas antes quero lhe oferecer uma coisa para ajudar os 
animais, principalmente o pequeno cisne que tem lhe dado tanto trabalho.
Abe soltou uma risada.
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Farica, que estava de p na penumbra, onde no poderia ser vista, viu 
quando Ivan colocou algum dinheiro na mo de Abe.
O velho recusou, mas Ivan insistiu, dizendo que era para aqueles que 
necessitavam, pois, afinal, talas, loes e curativos no cresciam em 
rvores.
Abe riu novamente e depois disse:
- Agora, cuide-se e saiba que ser bem-vindo, quando quiser voltar.
- Muito obrigado, Abe - disse Ivan.
Depois que Abe voltou para a estalagem, Ivan falou para Hagman:
- V buscar as minhas coisas e encontre-se comigo na clareira.
- Muito bem, senhor - concordou Hagman, num sussurro. Farica e Ivan 
dirigiram-se depressa para o estbulo.
Ivan comeou a colocar a sela em seu cavalo, quando Farica perguntou:
- Qual  o nome dele?
- Waterloo,  claro! O que mais poderia ser? Ambos riram e ele
acrescentou:
-  o que estou enfrentando no momento, Farica, minha batalha de
Waterloo, e ser uma grande vitria ou uma derrota humilhante.
- Voc sabe qual  a resposta para isso - disse Farica, em voz baixa.
Trouxeram Waterloo para o ptio, onde, sem que ela esperasse, Ivan 
levantou-a e a colocou na sela. Depois montou atrs dela e partiram, 
procurando manter-se afastados das casas at que alcanaram a alameda que 
levava  residncia de sir Robert.
- Como adivinhou que eu o levaria para algum lugar perto da minha casa? - 
indagou Farica.
- Posso ler os seus pensamentos - respondeu ele -, e, alm disso, creio 
que a minha prpria terra no seria muito segura para mim, no momento.
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Havia uma inflexo na voz mscula que a fez olhar para ele, procurando 
confort-lo.
Ao fazer isso, deu-se conta de que estavam muito prximos. Ele tinha um 
brao ao redor da sua cintura e seus rostos estavam separados por poucos 
centmetros.
Farica no cavalgava na mesma sela junto com um homem desde que era 
criana, quando seu pai a havia transportado em um de seus grandes 
garanhes. Agora sentia como essa posio era ntima, sendo impossvel os 
dois corpos no se tocarem. Cavalgavam em silncio, mas ela intua que, 
de uma maneira toda especial, estavam dizendo mil coisas um ao outro, sem 
necessidade de palavras.
Exatamente como ela fizera em seu caminho para a vila, Ivan procurou 
manter-se nas sombras, primeiro das sebes, depois das rvores, at que
chegaram  floresta.
Ivan ia devagar para no tornar a cavalgada desconfortvel para ela. 
Farica nunca se sentira to segura e to feliz em toda a sua vida.
Ivan estava em perigo e ela tambm, mas estavam juntos, o brao forte em 
torno da cintura de Farica. Ela sentia o corao pulsar de uma forma 
estranha, dentro do peito.
Na floresta havia muito silncio, apenas quebrado pelos pequenos animais 
que corriam para baixo da terra  aproximao deles.
Quando chegaram  clareira, onde o luar era de um brilho estonteante, 
instintivamente Farica virou a cabea para fitar Ivan, consciente de que 
ele experimentava a mesma sensao mgica.
Soltando as rdeas, Ivan abraou-a e beijou-a nos lbios.
Por um instante, Farica ficou surpresa depois soube que havia esperado e 
rezado por isso desde que o conhecera.
Ele a beijava com fora, de modo exigente, como se no pudesse controlar
a si prprio. Depois, sentindo a suavidade dos lbios dela e o arrepio
que percorria seu corpo, tornou-se mais
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gentil, mais terno, embora ainda possessivo, como se quisesse submet-la
com seus beijos.
Farica tinha a sensao de que o luar penetrava em seus corpos, com uma 
irradiao que s podia vir do cu.
Ela nunca havia sido beijada antes, e a sensao que experimentara era 
maravilhosa, diferente de tudo o que j conhecera ou de tudo o que j 
imaginara em seus sonhos mais loucos. Era como se ambos estivessem se 
movimentando em faixas de luz, em direo  prpria Lua.
No pertenciam mais  Terra, mas eram parte da esfera celeste, e as 
estrelas no estavam s  volta deles, mas em seus coraes e mentes, em 
seus olhos e lbios. Farica sentiu como se houvesse alcanado o cu, 
quando Ivan levantou a cabea e disse:
- Meu Deus, como eu amo voc! Minha querida, eu no pretendia fazer isso 
hoje  noite, nem em momento algum, enquanto no fosse um homem livre.
- Eu... amo voc.
A voz dela soou com tal xtase, revelando seus sentimentos, que Ivan 
beijou-a de novo, seu corao batendo contra o dela.
Ivan sabia que nunca havia experimentado nada semelhante em sua vida.
De repente, deram-se conta de que ainda estavam montados em Waterloo, 
quando ele comeou a comer um pouco da grama esparsa. Ivan desceu e tirou 
Farica da sela. Mas em vez de coloc-la no cho, segurou-a nos braos e 
beijou-a at que ela, quase sem querer, afastou-o com as mos.
Ivan parou de beij-la, mas conservou o brao em torno da sua cintura, 
dizendo:
- Desculpe-me,  que voc me faz perder a cabea. No consigo pensar 
direito, quando estou to prximo de voc.
Para Farica tambm era difcil manter a mente clara, quando os beijos
dele a faziam sentir-se viva e seu corpo todo pulsava de emoo.
- Eu. o amo - murmurou novamente.
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Trs simples palavras, mas pronunciadas do fundo do corao, uma 
sinceridade to sagrada como se houvessem sido proferidas em uma 
catedral.
Estavam se fitando, refletindo rio olhar toda a radiante luz do amor que 
emanava deles, quando ouviram os passos de Hagman que se aproximava 
deles.
Ele chegou trazendo uma trouxa que continha tudo o que Ivan possua no 
mundo.
- Foi uma sorte que voc estivesse l, hoje  noite - disse ela -, do 
contrrio no saberia como informar-lhe o lugar do esconderijo de seu 
amo.
- Para onde vamos? - indagou Ivan.
- Tenho de mostrar-lhe, seno nunca encontraro o lugar, e  melhor ir a 
p do que a cavalo.
- Eu irei caminhando e puxarei Waterloo. Voc pode ir montada nele. - E 
levantou Farica, colocando-a na sela.
Em silncio, passaram por um caminho cheio de curvas, rodeado de 
pinheiros, que os levava para a parte exterior do jardim da residncia de 
Farica.
- O caminho  frente talvez tenha grama crescida, porque faz muito tempo 
que ningum passa por aqui - disse Farica.
Ela desceu da sela e saiu caminhando  frente para mostrarlhes a trilha 
sinuosa entre as rvores. Ivan ia logo atrs, seguido de Waterloo e 
Hagman.
Bem no meio de um capo de rododendros, surgiu uma casa. Era muito 
pequena, pouco maior do que uma cabana. Iluminada pela Lua, lembrava uma 
casinha de fadas, com seu teto de sap e venezianas azuis.
Farica abriu-a com a chave que trouxera no bolso. A altura da porta 
permitia que ela a transpusesse normalmente, mas Ivan teve de abaixar-se 
para entrar.
Levaram algum tempo para encontrar o acendedor e acender o lampio que 
estava pendurado no teto da sala.
Feito isso, Farica abriu as venezianas. Ivan olhou em volta admirado, e 
ela riu.
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Papai construiu esta casinha para mim quando eu tinha
dez anos - explicou ela. - No era apenas a minha casinha de bonecas, 
tinha tamanho suficiente para que eu coubesse nela.
-  a coisa mais extraordinria que eu j vi na vida! exclamou ele.
- Eu a adorava. Embora voc se sinta um gigante dentro dela,  muito 
pouco provvel que algum venha procur-lo aqui. E ao menos tem um teto 
sobre a cabea e uma cama exatamente do seu tamanho.
A casa era dividida em dois compartimentos. Tinha uma sala de jantar, 
lindamente mobiliada, com carpete, uma lareira, poltronas e sof, que 
embora pequenos podiam comportar um adulto.
Havia uma mesa de jantar, com cadeiras revestidas de veludo, e quadros 
nas paredes reproduzindo fadas e duendes.
No quarto estava a cama que Farica costumava usar e vrias camas de 
boneca, assim como uma pequena penteadeira e um lavatrio, do tamanho 
adequado para uma menina de dez anos.
Ivan olhou em torno e disse:
- S mesmo voc poderia me apresentar uma coisa to fantstica. Quando a 
vi pela primeira vez, pensei logo que voc havia escapado da terra das 
fadas, e agora sei que no me enganei.
- E esta  uma casa de fadas na floresta - replicou Farica.
- Estou certa de que aqui voc ficar invisvel para aqueles que o esto 
procurando.
Ela tentava falar em tom confiante, mas havia um leve tremor na sua voz 
que denunciava o quanto temia por ele. Ivan se aproximou como se fosse 
toma-la nos braos. Mas depois recuou, lembrando-se de que Hagman estava 
l fora.
- H tambm um lugar para Waterloo - disse Farica -, pois eu costumava 
vir aqui com o meu pnei, e papai construiu uma pequena baia para ele.
Saram da casa e ela mostrou a Ivan o lugar onde o cavalo
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poderia ser alojado. Era bem pequeno, mas havia um curral um balde e 
palha no cho.
Tiraram a sela e os arreios de Waterloo e ele entrou na pequena baia, 
parecendo perfeitamente satisfeito.
- O que acha disso, Hagman? - perguntou Ivan.
- Se eu no estivesse vendo com meus prprios olhos replicou Hagman -, 
poderia jurar que  efeito de uns copos a mais no Fox and Goose.
Ivan soltou uma risada e acrescentou:
- Agora j sabe onde me encontrar. Devo ficar escondido aqui at que voc 
me diga o que est sendo tramado contra mim.
- vou manter os olhos e os ouvidos bem abertos, no se preocupe; virei 
v-lo assim que puder.
Obrigado, Hagman, e, se puder, traga-me um jornal. Quero ficar em dia com 
as notcias, para no me sentir to isolado do mundo.
- Pode deixar comigo, senhor. E boa noite! - Hagman olhou para Farica e 
disse: - E boa noite para a senhorita tambm. Aqui o senhor Ivan estar 
mais seguro do que em qualquer outro lugar.
- Tenho certeza disso - assegurou-lhe ela.
Hagman tomou o caminho por entre as rvores para chegar ao castelo, e 
Farica entrou, fechando as persianas, temerosa de que a luz do lampio 
pudesse ser vista a distncia.
Ivan, sentindo que no seria prudente ficarem os dois sozinhos dentro de 
casa, saiu para o pequeno terrao.
- Posso garantir que estar seguro aqui - repetiu Farica como se 
estivesse tentando convencer a si mesma.
- Nada poderia ser mais encantador, a no ser voc.  claro Farica sorriu 
e disse:
- Amanh de manh, bem cedinho, bem cedinho mesmo, para que ningum me 
veja, virei trazer-lhe comida. Ah, esquecime de lhe mostrar uma pequena 
fonte ao lado do estbulo. A gua dela  purssima, vem direto da 
montanha, no alto da floresta.
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O que mais posso desejar? - perguntou Ivan.
Ele estava brincando, pois, na verdade, no queria morar na casa de 
bonecas, mas no seu prprio castelo, que pertencera a seu pai e a seus 
ancestrais.
- Preciso voltar - disse Farica, relutantemente.
- Sabe que eu no quero que v, mas estou apavorado com a ideia de
ofend-la de alguma forma e tambm temo os comentrios das pessoas.
- No tenho medo disso.
- Voc  to maravilhosa que eu no permitiria que ningum dissesse uma 
palavra contra voc. Tudo o que quero  ajoelharme a seus ps, como se 
voc fosse uma santa, e agradecer-lhe por tudo o que tem feito por mim. - 
Assim falando, colocou os braos em torno dela e, levantando-lhe o rosto 
em sua direo, fitou-a longamente. - No existe uma mulher mais 
encantadora do que voc. E eu vou lutar por voc, defend-la e proteg-la 
pelo resto de minha vida.
Ivan falou de um modo to comovente que Farica sentiu-se tremer, pelo 
toque da mo dele e porque o amava.
- Voc vai vencer, no h a mnima dvida - disse ela.
- Mas tenha cuidado, porque as foras do mal esto voltadas contra voc.
Pela expresso dos olhos dele, percebeu que Ivan muito se ressentia do 
fato de se achar impedido de agir, detestando ter que se esconder e fugir
em vez de atacar o inimigo de frente.
Sabia exatamente o que ele estava pensando e, no desejo de confort-lo e 
infundir-lhe coragem, abraou-o, aproximando o rosto do dele.
- Eu o amo - disse ela -, e nosso amor deve ser invencvel.
Ivan a abraou com tanta fora que Farica ficou sem flego.
Depois comeou a beij-la de novo, com violncia e paixo, adiando a hora 
da despedida, deixando fluir a fora do amor que vibrava dentro deles.
Farica no se sentia amedrontada com os arroubos de Ivan.
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Sabia que ele precisava expressar o que estava sentindo. Tinha confiana 
nele, uma confiana ilimitada, que transpunha as barreiras de qualquer 
proibio.
Eu o amo. eu o amo, Farica queria dizer, mas era-lhe impossvel falar. S 
podia sentir seu corao batendo descompassadamente e um fogo queimando 
dentro dela que vinha do calor dos lbios de Ivan.
Somente depois de vrios minutos, ele falou:
- Perdoe-me. J deveria t-la enviado para sua casa h muito tempo, minha 
querida, no queria assust-la.
- No estou com medo, Ivan, s no sabia que o amor era to excitante, 
to diferente de tudo o que eu esperava.
Ele riu e perguntou:
- E o que esperava?
- Sempre pensei que o amor fosse algo muito calmo, suave e doce, como a 
msica de um violino ou o canto dos pssaros.
- E agora, o que pensa?
-  algo irresistvel... estupendo! Como ser transportada em uma 
carruagem de fogo to gloriosa, que me sinto enfeitiada.
- Acho que  assim que voc est - disse Ivan. - porque a amo, estou 
enfeitiado tambm. No somos, mais humanos, minha preciosa, mas nos 
tornamos deuses, e, assim, somos invencveis. - Ele abraou-a bem 
apertado e acrescentou:
- Voc me inspirou e me fez sentir mais homem.
- Eu o amo. como um homem.
- E eu a amo como uma mulher. minha mulher, e ningum jamais tirar voc 
de mim. - Olhou para ela por um momento e disse: - Vamos supor que eu no 
consiga recuperar o lugar a que tenho direito sendo herdeiro de 
Lydbrooke. Suponha que eu falhe, mas permanea vivo. Ainda assim, casar-
se- comigo?
Farica riu, feliz.
- Voc chegou a pensar, por um momento, que eu o amo porque  um conde? 
Eu o amo porque, como j disse, voc
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 um homem de verdade. Eu o amo desde o primeiro momento em que o vi, 
senti que era especial e diferente de todo mundo.
- Sua voz ficou mais suave: - Quando voc se virou para olhar para mim,
irradiava uma luz que recortava a sua silhueta por entre os troncos das
rvores. Eu disse a mim mesma que era o brilho do sol.
- Para mim voc brilhou desde o momento em que a vi, parada perto de mim.
Pensei que era uma ninfa - disse Ivan.
- E to diferente, to difana, que desde aquele dia roubou meu corao, 
o qual nunca mais recuperei.
- Era isso que eu queria saber - dise Farica. - Acontea o que acontecer, 
voc jura que nunca nos separaremos?
- Eu juro - disse Ivan com firmeza. - E, se for impossvel vivermos no 
castelo, eu construirei um castelo para ns em algum outro lugar, nem que 
tenha que faz-lo com minhas prprias mos. O que realmente importa, 
Farica,  que voc  minha, totalmente minha, e que eu no posso perd-
la.
Ivan a beijou de novo, e dessa vez ela sentiu seu desespero, como se ele 
temesse no somente por si mesmo e pela posio que lhe havia sido 
tirada, mas tambm temesse por ela.
- Esta noite estamos ambos enfeitiados - disse ela suavemente. - E, como 
uma feiticeira que sou, sei que tudo acabar bem. Talvez precisemos lutar 
como Hrcules para atingir o que  correto, mas seremos bem-sucedidos se 
nos mantivermos juntos.
Ivan beijou-lhe a mo e disse:
- Voc  maravilhosa, mas agora v dormir, minha querida, enquanto 
consigo deix-la ir. Um dia, se Deus quiser, estaremos casados, assim a 
noite no nos separar. Mas agora precisa ir.
Farica beijou-o delicadamente na face e no mesmo instante a paixo surgiu 
nos olhos dele e nos lbios que procuraram os dela.
- Quero voc, meu amor, como eu quero voc. - mur murou ele.
Ento, abruptamente, como se estivesse deixando uma parte
do prprio corpo, ele se afastou dela e entrou na pequena casa de
bonecas, fechando a porta atrs de si.
Por um momento, ela quase no conseguiu acreditar que Ivan se fora. Seu 
corao batia to descompassado que sentia o mundo rodar  sua volta.
Depois, sabendo que era a coisa certa a fazer, correu por entre os 
arbustos para casa, repetindo sem cessar:
- Obrigada, meu Deus, obrigada! Ele me ama e eu tambm o amo, e o resto 
no importa.
92

CAPTULO VI

No dia seguinte, Farica levantou-se antes das cinco horas da manh, no
horrio em que as empregadas desciam para abrir a casa.
Enquanto deslizava pelos corredores, pensava que, se seu pai soubesse o 
que estava acontecendo, ficaria horrorizado, o mesmo ocorrendo com a me, 
se ainda vivesse.
Mas precisava tentar ajudar Ivan de todas as maneiras possveis. Fergus 
era muito perigoso e com certeza mataria sem remorsos para no perder sua 
posio de conde.
Farica procurou afastar esses pensamentos assustadores e concentrou-se 
nas necessidades mais triviais de Ivan, ou seja, tratou de conseguir 
alguma coisa para ele se alimentar.
Na cozinha silenciosa, o cheiro do pavimento recm-lavado misturava-se 
com o odor das cebolas que pendiam dos caibros do teto de madeira. Mas 
ela continuou pelo corredor at a leiteria, com suas lajes de mrmore 
frio sobre as quais estavam enormes tigelas cheias de leite que se haviam
transformado em creme durante a noite.
L ficava tambm toda a comida que sobrara do dia anterior, alm de ovos 
e manteiga que haviam sido trazidos da fazenda matriz.
Farica pegou uma cesta e encheu-a primeiro com os alimentos mais pesados. 
Tirou fatias de presunto de um pernil recm
93
cortado e carne de- porco que o cozinheiro havia preparado de acordo com
uma receita que seu pai herdara e que era considerada de excelente
qualidade por todos os que j a haviam provado. Havia tambm os restos do
salmo que fora servido no jantar. Farica sabia que esse era um petisco 
que Ivan apreciara quando garoto e que certamente apreciaria agora.
Quando terminou de encher uma cesta, pegou outra, onde colocou uma dzia 
de ovos, meio quilo de manteiga feita do leite do gado Jersey de seu pai 
e um favo de mel, das colmeias do jardim interno.
Sabendo que ainda no havia po fresco, que s seria assado mais tarde, 
ela optou por partir ao meio um bolo caseiro e colocou-o em cima de tudo.
J estava saindo quando se lembrou de que ele iria precisar de leite e de 
um pouco de caf ou ch. Encontrou caf modo no armrio da cozinha e 
encheu uma pequena jarra com leite, antes de sair pela porta dos fundos.
Era difcil carregar duas cestas bem pesadas, mas ela conseguiu, embora, 
ao alcanar a casa de bonecas, sentisse as pernas trmulas e tivesse os 
braos dodos.
Tinha planejado deixar as cestas do lado de fora da porta, mas Ivan devia 
t-la visto chegar atravs da janela, pois logo apareceu, exclamando:
- Como pde vir to cedo e carregando tantas coisas?
- Pensei que voc podia estar com fome - respondeu ela, com um sorriso.
Ele estava se vestindo, quando ela chegou, e usava somente uma camisa e 
uma cala de montaria, que no eram to elegantes quanto as de seu pai.
Mas j tinha dado o n na gravata e ela o admirou, achando-o bonito e 
atraente, de uma beleza mscula.
Ento corou, porque se sentiu embaraada por ter pensado nele nesses 
termos.
Mas ele no notou. Tomou as cestas e o jarro das mos dela
e levou-os para dentro da casa. Colocou-os em cima da pequena mesa, onde 
ela costumava oferecer ch para suas bonecas ou para suas amigas.
A me de Farica mandara instalar, ao lado da lareira aberta, um pequeno 
fogo, uma rplica fiel do grande que havia na cozinha da casa dela.
No  preciso dizer que esse fora um brinquedo que Farica apreciara 
muitssimo. Nele cozinhara todo tipo de pratos diferentes para seus 
amigos e chegara a levar alguns para seu pai provar.
- E agora, que inveno  essa? - costumava perguntar ele.
-  uma receita que consegui com o cozinheiro, papai, e eu a preparei 
exatamente do jeito que ele me ensinou.
Algumas vezes era um grande sucesso, outras um fracasso, mas agora tudo o 
que ela pensava era que ao menos Ivan poderia cozinhar seus ovos e fazer 
caf no pequeno fogo.
Como era vero, tinha certeza de que ele no se importaria de comer sua 
comida fria.
Ivan olhou, atnito, para tudo o que ela lhe havia trazido e disse:
- Isso  suprimento para um dia ou para um ms? Farica soltou uma risada.
- Voc parece estar precisando se alimentar bem.
- Assim voc ofende as freiras, que foram to boas para mim.
- Acho que a comida do convento era muito boa para a alma, mas no to 
saborosa quanto voc gostaria, se pudesse escolher.
-  claro que no estou reclamando do que me trouxe disse Ivan. - S 
posso agradecer por voc ter tido tanto trabalho por minha causa.
Ele falava de uma maneira carinhosa, que a fazia se sentir como se a 
estivesse beijando. Percebeu que ele estava pensando o mesmo e enrubesceu 
violentamente.
95
A
- No posso ficar - falou, apressada. - Ningum deve saber que sa to 
cedo.
- Gostaria que ficasse comigo o dia inteiro, pois, sem voc, me sinto
perdido, solitrio e deprimido, mas quando est a meu lado tudo fica
diferente.
A maneira como ele falava era to comovedora que ela se sentia cativada. 
No momento seguinte, sem se poder determinar qual dos dois tomara a 
iniciativa, estavam um nos braos do outro, e ele a beijava, no to 
ardorosamente como na noite anterior, mas de um jeito mais gentil, embora 
possessivo.
Era como se pertencessem um ao outro e nada os pudesse separar.
- Sabe que  muito bonita? - disse Ivan, quando conseguiu falar. - Voc  
o sol da minha vida, e, quando est perto de mim, como agora, sinto que 
posso conquistar o mundo.
- E  isso que voc vai fazer. E o mundo que conhecemos. nosso mundo. 
ser um lugar muito melhor, porque voc o estar administrando.
Ivan nada respondeu. Apenas a beijou, at que, com muito esforo, 
afastou-a de si.
- V para casa, minha querida. vou acender o fogo, cozinhar alguns ovos 
para mim e abeno-la a cada bocado que puser na boca.
- Quer que eu fique e os cozinhe para voc?
- No creio que seria prudente - respondeu ele, srio
- Se seu pai souber o que est acontecendo, poder se revoltar e cobrar 
de meu primo uma retratao, o que o levar a suspeitar que eu estou 
escondido aqui, na propriedade dele. E tambm que voc est envolvida. - 
Ele prendeu a respirao e acrescentou com firmeza: - No! Isso no pode 
acontecer! Volte Farica! Eu adoro voc por tudo o que tem feito, mas 
precise proteg-la, e s Deus sabe o quanto tem sido difcil proteger a 
mim mesmo.
- Vou-me porque voc est me pedindo - respondeu Farica.
96
- mas eu a amo e estarei rezando por voc. - Aproximou-se da porta e
parou. - Sabe que vou sair a passeio com
seu primo, esta tarde? - No me esqueci - respondeu ele, num tom de voz muito
diferente. - Precisa mesmo ir? No posso suportar a ideia de
ver voc acompanhada daquele homem!
- Creio que  prudente afastar quaisquer suspeitas que ele possa ter, at
que Hagman descubra o que est planejando e onde esteve seu aliado, que
est procurando por voc.
Ivan no respondeu, e, aps alguns instantes, Farica acrescentou:
- Oh, meu amado, tenha cuidado! Se alguma coisa lhe acontecer eu no vou 
querer continuar vivendo!
Havia dor em sua voz. Comovido, ele ia se aproximando, mas Farica saiu
depressa pela porta aberta e desapareceu no meio dos rododendros.
Queria esconder dele as lgrimas que brotavam de seus olhos, pois no 
podia suportar v-lo to humilhado e forado a se esconder enquanto um 
usurpador era o senhor do castelo, tendo criminosos a seu servio, 
prontos para matar sob suas ordens.
"Fergus  cruel, cruel!", pensava Farica, enquanto voltava para a manso.
Entrou em casa pulando uma janela que tinha um fecho quebrado e subiu 
pela escada dos fundos, evitando assim encontrar-se com as empregadas que 
j andavam apressadamente pelos corredores, tendo nas mos vassouras e 
panos de tirar p.
Esgueirou-se para o quarto, vestiu a camisola novamente e meteu-se na 
cama. Ao deitar-se contra os macios travesseiros, tentava pensar somente 
em Ivan e no quanto o amava, e esquecer todos os problemas que o 
perseguiam.
Adormeceu e quando deu por si, a criada estava afastando as cortinas e o
sol entrava no quarto.
Farica vestiu o traje de montaria e desceu para tomar o desjejum com o 
pai. Depois iriam exercitar os cavalos ao redor do Parque e galopar pelas 
plancies.
97
Mais tarde, vendo o pai cavalgar um dos seus magnfjCOs garanhes, que 
lhe custara uma pequena fortuna, imaginou o quanto Ivan gostaria de estar
com eles.
Chegou a imaginar que, se contasse ao pai toda a verdade ele o convidaria 
a reunir-se a eles.
Depois lembrou-se de que Riggs era muito perigoso e que muitos outros 
assassinos contratados pelo conde deviam estar investigando as estalagens 
da regio, interrogando pessoas nas vilas e talvez ameaando-as, se 
achassem que no estavam falando a verdade.
- Voc parece preocupada, minha querida. Algum problema? - perguntou sir 
Robert. - Espero que no esteja preocupada com a vinda do conde, esta 
tarde. Pessoalmente, estou ansioso para tomar ch no castelo. Tenho 
particular interesse em visitar a estufa de plantas, aonde no vou h 
muito tempo. O velho conde possua uma magnfica coleo de orqudeas que 
agora devem estar em flor. Talvez encontre alguns espcimes desconhecidos 
para mim.
- Lembro-me de como eram belas - disse Farica.
- Precisa incentivar Fergus a continuar aumentando a coleo, que 
acredito ser nica em toda a Inglaterra - disse sir Robert. - Durante a 
guerra, era difcil obter novos espcimes, mas agora estou certo de que 
ele encontrar grande interesse e satisfao nesse passatempo. - Falava 
como se o casamento dela com Fergus fosse um fato consumado.
Farica pensou no que ele diria se soubesse que o genro to desejado no 
passava de um impostor e assassino.
Quando o conde chegou, em sua carruagem aberta, s duas horas, ela 
percebeu, observando a maneira gentil como ele tratava seu pai, que 
qualquer pessoa que o encontrasse em ambiente social pela primeira vez 
nunca desconfiaria de sua maldade.
- H tantas coisas sobre as quais eu quero consult-lo, sir Robert - 
disse o conde, em tom insinuante, exatamente do jeito como um homem mais
velho gostaria que um jovem lhe
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dirigisse a palavra. - O senhor  to sbio e experiente, em assuntos do
campo - continuou ele -, enquanto eu at agora no tive oportunidade de
dedicar-me a eles. Ficarei imensamente grato por qualquer ajuda que puder
me prestar. Espero que no o aborrea muito, bombardeando-o de perguntas.
- Meu querido rapaz, sinta-se  vontade para perguntar o que quiser - 
respondeu sir Robert.
Farica sentia-se nauseada com a hipocrisia dele. Vestira um dos seus 
vestidos mais bonitos, no para agradar o conde, a quem odiava cada vez 
mais, mas porque estar bem-vestida elevava-lhe o moral.
Estava esperando que o conde lhe perguntasse sobre quando se casariam. J 
havia decidido deixar bem claro, para que no houvesse suspeitas, que o 
nico motivo pelo qual estava indecisa era ser tmida e estar um pouco 
temerosa de casar-se to precipitadamente.
No entanto, para sua surpresa, quando partiram na carruagem, o conde no 
a elogiou, nem falou nada que a embaraasse. Em vez disso, declarou:
- Que homem adorvel  seu pai! Acho-a uma felizarda por ter um pai que 
gosta tanto de voc e com o qual se d to bem. - Suspirando, continuou: 
- Meu pai e eu nunca nos demos bem. E, como minha me morreu quando eu 
era muito jovem, muitas vezes me senti solitrio.
Farica sabia que ele estava dizendo tudo isso para despertar sua 
simpatia, mas respondeu gentilmente:
- Sinto muito por voc. Para falar a verdade, creio que seu tio o teria 
recebido bem no castelo, mas ele sempre achou que voc preferia viver em 
Londres.
- Londres pode ser um lugar muito divertido para um jovem, mas tambm 
muito dispendioso.
-  verdade - concordou Farica.
- Alis - continuou Fergus -, fiquei admirado ao descobrir que as coisas 
so muito caras no campo tambm. E isso
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me lembra uma coisa. Eu ia convid-los para o ch, mas chegaram uns 
homens bem na hora em que eu estava saindo para apanh-la, e no posso 
deix-los sozinhos a tarde toda.
- Que homens?
- Pensei que lhe houvesse dito. Um dos vitrais da capela quebrou-se e 
tive de contratar artesos especializados para vir consert-lo.
Farica nunca pensara que o conde se interessasse pela capela. Embora 
fosse muito bonita, no era usada h anos, porque o velho conde sempre 
preferira a igreja da vila, onde estavam enterrados todos os Brooke j 
falecidos.
- Gosto de senti-los perto de mim - dissera ele uma ocasio, e Farica 
entendera o que queria dizer.
A capela era muito antiga, pois pertencia a uma parte do castelo que 
nunca fora reformada. Farica sabia que a quebra dos vitrais era um grande 
desastre, pois eles tinham mais de quatro sculos de idade.
- Como aconteceu isso? - indagou ela. E o conde sacudiu a cabea.
- No tenho a menor ideia, talvez tenha sido o vento. Como voc conheceu 
os vitrais em bom estado, inteiros, pensei que pudesse ajudar a 
reconstitu-los.
- Espero que consiga, embora no me lembre bem deles.
- Vamos passar por l e dizer aos artesos como fazer, e mais tarde 
voltaremos para verificar se trabalharam direito.
Assim falando, o conde conduziu os cavalos pela alameda de carvalhos, de 
onde Farica podia ver o magnfico prdio, cuja beleza sempre a 
emocionava.
Notou que a flmula que deveria estar hasteada no mastro, indicando que o 
conde estava em casa, havia sido esquecida. Isso lhe pareceu um pressgio 
de que, dentro em breve, Ivan tomaria o seu lugar.
O conde fez os cavalos pararem em frente  porta principal.
- Entre e venha dar uma olhada no que est sendo feito 
100
sugeriu ele, quando estavam subindo a escada de pedra que dava no hall,
onde havia belas esttuas de deuses gregos e retratos dos ancestrais dos
Brooke.
O corredor que levava  capela era longo, cheio de armas e quadros nas 
paredes e decorado por finas peas de mobilirio.
Uma vez seu pai dissera:
- Todas as vezes que vou ao castelo, compreendo que seria impossvel um 
homem sozinho, por mais rico que fosse, comprar todas as relquias que 
somente vrias geraes poderiam colecionar.
Farica, sabendo que ele sentia inveja, segurara-lhe o brao e dissera:
- O senhor tem colecionado coisas muito mais bonitas, no decorrer de sua 
vida, papai, do que a maioria dos homens conseguiria, e eu serei 
eternamente grata pelo seu bom gosto.
Sir Robert ficara encantado e a beijara, mas agora achava que ele tinha 
razo. Somente famlias muito antigas poderiam ter reunido tantas coisas 
bonitas atravs dos sculos, coisas que j faziam parte da histria da 
Inglaterra.
Quando chegaram  capela, Farica ficou surpresa ao ver que no havia 
nenhum homem trabalhando no conserto dos vitrais.
Havia candelabros acesos, trs de cada lado de uma grande cruz de prata, 
que datavam do tempo do reinado de James I.
Ela se virou para o conde com um olhar de interrogao e viu-o fechar a 
porta atrs deles.
- Por que. Onde esto os artesos? - perguntou, quando viu, atravessando 
o santurio para se posicionar diante do altar, um padre usando uma 
sobrepeliz.
- O que est acontecendo? - perguntou Farica. O conde tomou a mo dela 
entre as suas e disse:
- J que voc no consegue se decidir, eu tomei a deciso por voc. 
Trouxe-a aqui, Farica, para casar-se comigo, porque quero despos-la e 
no posso mais suportar evasivas.
Incrdula, ela respirou profundamente e respondeu:
101
- Como ousa fazer uma coisa to vergonhosa?  claro que no quero me
casar com voc sem a presena de papai e de uma maneira to clandestina.
- Voc no tem escolha.
- Tenho todas as escolhas! - retorquiu Farica. - Voc
no pode me obrigar a casar se eu no pretender faz-lo.
- Ento vou precisar usar de um pouco de persuaso disse o conde, com uma
nota perversa na voz, que a alarmou.
- Nada do que voc disser ou fizer vai me convencer a despos-lo!
Falou com voz firme e decidida, embora no ntimo tremesse de medo. Foi 
ento que o conde tirou do bolso do casaco um punhal fino e comprido, 
algo parecido com um estilete.
Era uma rplica daquele com o qual tentaram matar Ivan no convento.
- Ento est pretendendo me matar! - exclamou ela.
- No,  claro que no! Morta, voc seria intil para mim. Mas, se se 
recusar a cumprir o meu intento, vou marcar o seu rosto de tal forma que 
nenhum homem olhar para voc, a no ser com horror, e somente eu estarei 
disposto a despos-la em tal situao, pelo que voc me agradecer.
A ameaa se tornava ainda mais aterrorizante pela voz sinistra do conde, 
e, recuando, Farica soltou um grito de pavor. Mas ele a segurou.
Depois empurrou-a para que ela ficasse de frente para o padre.
Era um homem idoso, de olhar evasivo e barba grisalha e desgrenhada. 
Segurava em suas mos trmulas um brevirio, e Farica notou que ele no
tremia de medo. Mas era porque estava embriagado.
Tentava pensar numa sada para aquela situao terrvel, quando o conde
disse rispidamente para o padre:
- Comece a cerimnia, seu idiota!
O padre folheou nervosamente o brevirio e, com voz arrastada, comeou:
102
Caros irmos.
- V direto ao servio! - trovejou o conde.
O clrigo virou rapidamente vrias pginas do livro, mas, antes que ele 
pudesse falar, a pesada cruz de prata do altar despencou sobre sua 
cabea. Ele caiu ao cho.
O conde deixou escapar um grito enfurecido. Um homem saltou de trs do 
altar e deu-lhe um sonoro soco no queixo. Ele voou no ar e caiu, batendo 
a cabea na extremidade de um banco, ficando inconsciente.
Antes que pudesse fazer qualquer movimento, Farica viu-se envolvida nos 
braos de Ivan, que a carregou para fora, deixando atrs de si os dois 
homens desmaiados.
A porta se abriu. Postado do lado de fora, Hagman sorria.
Sem nada dizer, Ivan transportou Farica ao longo do corredor e levou-a 
para o jardim atrs do castelo.
Atravessou a alameda, evitou o roseiral e entrou no meio dos arbustos. 
No tinham ido muito longe quando encontraram Waterloo amarrado a uma 
rvore.
Ivan depositou Farica no cho e s a ela soltou um suspiro de alvio e 
finalmente conseguiu falar:
- Oh, Ivan, Ivan!. Voc me salvou. eu estava to apavorada!
- Eu sabia disso, querida, mas tive que esperar at o ltimo momento para
que tudo desse certo e eu pudesse derrub-lo.
- Foi muito esperto.
- Devo sair daqui.
Ivan levantou-a novamente e colocou-a sobre a sela de Waterloo. Depois 
conduziu o cavalo por entre os arbustos, at o jardim, e saram para o 
campo aberto.
Farica tirou o chapu, amarrando-o pela fita na sela. Ivan montou atrs 
dela, que se inclinou para encostar-se nele, com um suspiro de alvio e 
felicidade.
- Como voc adivinhou? Como pde imaginar? Quando ele me falou da janela 
da capela que precisava ser consertada, eu nem suspeitei do que estava 
planejando.
103
- Voc precisa agradecer a Hagman por t-la salvado, meu amor - respondeu 
Ivan. - Quando ele veio me ver, esta manh, depois que voc saiu, disse-
me que duas coisas estranhas para as quais no encontrava explicao 
estavam acontecendo no castelo. - Ivan beijou-lhe os cabelos e continuou'
- Primeiro foram encomendadas flores brancas para a capela, o que 
surpreendeu a todos os criados, pois o senhor conde nunca tinha 
participado de nenhum tipo de servio religioso desde que havia tomado 
posse do ttulo. Depois, chegou um padre de Londres.
- Hagman sabia que era um padre? - perguntou Farica.
- Ele disse que era um padre muito estranho, pois, assim que botou os ps
na casa, j antes do caf da manh, foi logo pedindo conhaque.
- E Hagman veio e contou-lhe o que estava acontecendo?
- perguntou Farica.
- Quando ele me contou tudo isso, fiquei assustado. Meu desprezvel primo 
queria o seu dinheiro, e, sabendo como sua mente tortuosa funciona, 
imaginei que estivesse determinado a conseguir o seu intento de qualquer 
maneira.
- Ele queria fazer uma coisa to horrvel. to bestial. Desfigurar o meu 
rosto.
- Ele teve sorte de eu no t-lo matado! Mas eu j havia decidido, antes 
de ir  capela salv-la, que esta situao em que nos encontramos no
pode mais continuar.
- O que pretende fazer? - indagou Farica, nervosa. - Oh. querido, tenha 
cuidado! E se alguma coisa de ruim lhe acon tecer?
- Nada vai acontecer, e eu no pretendo decepcion-la! replicou Ivan. - 
Estou indo para Londres.
Era a ltima coisa que Farica esperava ouvir, e levou alguns segundos 
para se recompor antes de repetir:
- Para Londres?
- Li no jornal que Hagman me trouxe que o coronel do
104
do meu regimento e dois colegas oficiais voltaram para a Inglaterra, vindos
de Paris, onde estavam no Exrcito de Ocupao. vou procur-los, explicar
minha situao e tenho certeza de que vo me ajudar.
- Oh, Ivan, que tima ideia! Se voc puder contar com os soldados, tudo
vai ficar bem melhor.
- Vai haver um escndalo, o que  lamentvel, mas alguma coisa precisa 
ser feita, isso eu j havia decidido antes de aquele demnio assustar 
voc.
Farica encostou o rosto no ombro dele, que a beijou na testa.
- Est tudo acabado, meu amor, mas quero que conte a seu pai o que 
ocorreu.
Quer realmente que eu conte a meu pai?
- Mas no mencione o meu nome - disse ele, depressa.
- O que quero  que o faa compreender que no pode mais avistar-se com o 
conde em hiptese alguma, que ele  muito perigoso e que voc deve ficar 
fortemente vigiada, dentro de sua casa ou em qualquer lugar aonde for.
- Tenho certeza de que, quando eu disser a papai que seu primo tentou 
casar-se comigo  fora, ele vai tomar todas as precaues para que isso 
no acontea novamente. Mas como vou lhe contar que fui salva?
- Diga-lhe que foi um dos criados do castelo que a colocou do lado de 
fora da porta e fugiu para no perder o emprego.
- Talvez papai acredite nessa histria, mas ser que ele no vai achar 
estranho?
- O importante  que ele no permita que isso, ou qualquer coisa 
semelhante, acontea na minha ausncia. Acho que podemos contar com que 
Fergus fique mal durante o resto do dia, e talvez amanh o dia todo. Mas 
eu pretendo estar em Londres amanh  noite. Depois disso, recuperarei os 
meus domnios,
ao menos espero.
- Voc conseguir! - disse Farica, profeticamente.
- E eu sei que, se estiver dirigindo tudo, eu estarei a salvo.
105
- com ajuda de Deus - disse Ivan, baixinho, e Farica acrescentou muito
suavemente:
- Tenho certeza de que Ele nos ajudar.
Deus, agindo de forma muito misteriosa, primeiro os reunira e depois os 
ajudara em tudo o que fizeram.
- Sei que vai dar tudo certo! - disse Farica. - Por outro lado, temo por 
voc viajando sozinho.
- J pensei nisso, e talvez tome emprestado um cavalo, pois no tenho 
meios de comprar um.
Farica sorriu ternamente.
- Voc sabe muito bem que pode pegar Pgaso e que ele ficar muito 
orgulhoso por transport-lo. Hagman pode montar Waterloo, e a primeira 
coisa que vou pegar quando chegar em casa ser algum dinheiro.
Ivan estava prestes a protestar quando ela colocou a mo nos lbios dele, 
impedindo-o de falar.
- Depois de tudo o que passamos juntos - disse -, voc est querendo 
bancar o orgulhoso. Acho que, pela primeira vez, vou ficar brava com 
voc, se no ofendida.
Sem poder se conter, Ivan soltou uma risada.
- Devo considerar que voc me abrigou e me alimentou. Agora, estou 
completamente pobre, mas s posso prometer, minha querida, que vou lhe 
devolver tudo.
- Sendo eu uma usurria esperta - brincou Farica -, vou querer juros de 
cem por cento do meu dinheiro, a ser pago em beijos.
- Vai receber o primeiro agora - disse Ivan, puxando-a para si, enquanto 
dominava Waterloo.
Os lbios de Farica estavam esperando pelos dele, que a beijou at que 
tudo pareceu se desvanecer  volta deles.
Continuaram a cavalgar e, poucos minutos mais tarde, chegaram ao jardim 
da manso de Farica.
- Antes de falar com papai, irei levar-lhe tudo o que voc vai precisar. 
Ele estar trabalhando no escritrio, nos planos
106
 da mina de ardsia, at a hora do ch no castelo. vou at o
estbulo pegar Pgaso e direi aos cavalarios que o deixarei com um 
amigo, por esta noite. Depois irei ter com voc.
- Tem certeza de que vai ficar bem? - perguntou Ivan, e ela riu.
- No creio que seu horrvel primo se sinta forte o suficiente para 
atacar-me, ao menos nas prximas horas!
Ivan apertou-a fortemente contra si, como se a ideia de ela vir a ser 
atacada por algum o assustasse. Ento, falou:
- Muito bem, v depressa e no d chance para que ningum lhe faa 
perguntas. Lembre-se de que Riggs e seus cmplices ainda no sabem o que 
aconteceu no castelo.
Farica esgueirou-se por entre os arbustos e saiu em direo aos 
estbulos. L chegando, verificou que no havia ningum. Imaginou que os 
cavalarios estivessem exercitando os cavalos antes de aprontarem a 
carruagem que levaria seu pai ao castelo.
Foi at a baia de Pgaso e colocou ela mesma a sela e as rdeas no
cavalo. Entrou em casa pela porta que dava para o jardim. Sem ser vista,
correu pelos corredores, at o escritrio usado pela secretria do pai,
que estava em Londres por trs dias, tratando de assuntos 
administrativos.
Pegou no esconderijo as chaves do cofre, que continha no somente as 
jias de sua me, mas tambm o dinheiro para pagar os salrios dos 
empregados, o que era feito por semana ou por ms.
Sem dificuldade, tirou cem libras e fechou a porta do cofre. Colocando as 
chaves de volta no lugar, dirigiu-se novamente aos estbulos.
Ainda estava tudo muito silencioso, exceto pelos movimentos dos cavalos 
em suas baias. Conduziu Pgaso para o ptio, montou-o e partiu em direo 
 casa de bonecas.
Ivan estava esperando e tirou-a da sela, beijando-a.
- Algum viu voc? - perguntou ele, pousando-a no cho.
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- Ningum. E aqui est o seu dinheiro. Mas no se esquea de me pagar.
Ele lhe agradeceu com outro beijo e colocou o dinheiro no bolso, sem 
verificar a quantia.
Depois levou Pgaso para o estbulo antes ocupado por Waterloo, que agora 
estava amarrado a uma rvore.
- Ele vai ficar ressentido por ser desalojado por Pgaso
- brincou Farica.
- No se preocupe, Waterloo est disposto a dar lugar aos mais velhos e
melhores - replicou Ivan.
Tirou a sela e as rdeas de Pgaso e, enquanto caminhavam para a casa de
bonecas, declarou:
- Sinto muito no poder dizer a seu pai como voc  valente. No conheo 
nenhuma mulher que se comporte com tanta coragem, em circunstncias to 
horrveis.
- Elas no foram to horrveis. j que me salvou.
- Alm de corajosa,  bonita! Nunca houve ningum como voc, e voc sabe 
disso. - Beijou-a com paixo, dizendo:
- Mas lembre-se, minha querida, de que no vencemos ainda a guerra, houve 
apenas uma escaramua que deixou o inimigo de sobreaviso.
- vou lembrar-me disso - respondeu Farica, solenemente.
- Sei que papai vai me proteger, assim que tomar conhecimento dos 
acontecimentos.
- Prometa-me que vai ser tambm muito cuidadosa - pediu Ivan. - Sabe que 
um rato acuado luta com todas as armas, e isso  exatamente o que o conde 
.
Farica estava com medo, mas no queria que Ivan percebesse. Rapidamente, 
beijou-o e, sem dizer mais nada, voltou para casa. Encontrou o pai no 
escritrio, debruado sobre os mapas.
- Farica! - exclamou ele. - Por que est aqui? O que aconteceu?
- Tenho algo terrvel para lhe contar, papai.
Tirou o chapu e sentou-se ao lado do pai, tomando a mo dele entre as 
suas.
108
- No quero que fique perturbado com o que vou lhe contar - disse ela -,
embora seja algo horrvel.
- De que est falando? E por que voltou sozinha para casa? Ele parecia 
perturbado, e Farica, apertando-lhe bem a mo,
contou-lhe exatamente o que ocorrera, omitindo somente o nome da pessoa 
que colocara o conde fora de combate e a tirara da capela.
- No posso acreditar! - exclamou sir Robert, atnito. Como o conde ousou 
fazer tal coisa? Como ousou trat-la de
maneira to monstruosa?
- Bem, agora estou salva. A nica coisa  que ele pode tentar de novo.
- Para se casar com voc, s passando por cima do meu cadver! - disse 
sir Robert, furioso.
- Creio, papai, que a melhor maneira de encarar tudo isso  pensar que o 
conde est meio louco. Ele precisa de dinheiro to desesperadamente que 
est disposto a fazer qualquer coisa para consegui-lo. Mas sei que o 
senhor vai impedir que ele tome o meu dinheiro.
- Isso certamente  verdade! - concordou sir Robert. O que me aborrece, 
minha filha,  que voc tenha passado por uma experincia to 
desagradvel, embora nenhum de ns pudesse prever. Quando me defrontar 
com aquele rapaz, vou dizerlhe exatamente o que penso dele.
- No, no, papai, isso no vai adiantar nada! Creio que o melhor  
fingir que nada aconteceu. De qualquer forma, acho que no veremos o 
conde por algum tempo. - Ela parou e, pensando no que Ivan lhe dissera, 
acrescentou: - A menos,  claro, que a necessidade de dinheiro seja tanta 
que ele tente novamente.
- Se ele pensa que pode raptar voc pela segunda vez, pode ter certeza de 
que eu o impedirei!
Depois, levantou-se e caminhou pelo escritrio, como se o movimento 
aliviasse sua aflio.
109
Alguns instantes mais tarde, comentou: 
- O nico consolo  que ns dois estaremos longe daqui amanh, por um dia 
ou por mais tempo.
- Longe, papai? Por qu?
- Depois que voc saiu, chegou um criado de minha irm, com o recado de 
que ela sofreu um ataque cardaco. Quer nos ver imediatamente.
- Oh, pobre tia Alice! Que horrvel! - exclamou Farica. A irm de seu 
pai, lady Burton, morava a quinze quilmetros
dali, e Farica considerou que no precisava estar em casa para prestar 
ajuda a Ivan, j que ele estava de partida para Londres na manh 
seguinte.
- Sairemos daqui bem cedo - disse sir Robert -, o que significa que 
estaremos l na hora do almoo; a veremos o que pode ser feito por sua 
tia e retornaremos a tempo para o jantar.
- Seria bom, papai, pois no gostaria de ficar muito tempo naquela casa 
desconfortvel.
- Concordo com voc - disse sir Robert. - Portanto, temos que acordar 
mais cedo. E, para que nada de desagradvel acontea antes de nossa 
partida ou durante a jornada, levarei James e Henry conosco como 
batedores. - Fez uma pausa e depois acrescentou, como se estivesse 
falando consigo mesmo:
- Ambos tm boa pontaria.
- Creio que seria prudente, papai, e, sem dvida, muito mais seguro do 
que viajarmos sozinhos - disse Farica.
- Mais seguro! - vociferou sir Robert. -  um absurdo que eu precise me 
proteger de meus prprios vizinhos. Tudo o que posso dizer  que prefiro 
ver voc morta a v-la casada com aquele patife!
Ele mudara de ideia to depressa que Farica sorriu.
E, se o pai soubesse dos crimes que o conde cometera e da forma como 
perseguia Ivan naquele momento, ficaria ainda mais furiosoo do que j
estava.
110
Mas preferiu no dizer nada, somente se levantou para beijar o rosto do
pai.
- Eu o amo, papai, e no vamos falar mais no conde. Ele me assusta!
- Aquele porco! - rosnou sir Robert.
111

CAPTULO VII

Farica acordou cedo, mas no o suficiente para ir at o esconderijo sem
que sua ausncia fosse notada.
Queria muito ver Ivan, mas sabia que seria um transtorno, se seu pai 
descobrisse que, naquele momento, ele estava escondido na sua casinha de 
bonecas.
Pressentia tambm que Ivan no queria conhecer sir Robert como um 
fugitivo, uma vtima de seus prprios parentes.
Assim, levantou-se, vestiu um belo traje de viagem com chapu e xale 
combinando e desceu para o desjejum.
Imaginou que o pai estivesse to interessado nos seus planos para a mina 
de ardsia, que ainda daria uma ltima olhada neles antes de partirem.
Tomaram um farto caf da manh na sala de jantar pequena e Farica, ao se 
servir, desejou que Ivan fosse sensato o suficiente para se alimentar 
bem, antes de iniciar sua rdua jornada para Londres.
Ele ia precisar pernoitar uma noite na estrada, para dar descanso aos 
cavalos. Seu pai, quando fazia essa viagem, costumava pernoitar, no 
caminho, duas noites, se possvel na companhia de amigos.
Farica se preocupava, receando que Ivan fosse visto e reconhecido na vila 
e que Riggs e outros cmplices do conde o seguissem e o matassem, quando 
ele estivesse desprotegido, hospedado em alguma estalagem  beira da 
estrada.
112
Depois convenceu a si mesma de que estava sendo medrosa demais. Afinal,
Ivan lhe havia dito que ela era muito corajosa e precisava fazer jus ao 
elogio.
O pai, ao terminar seu desjejum, disse:
- Quanto mais cedo sairmos, melhor. Espero encontrar sua tia recuperada, 
quando l chegar, e j posso imaginar que est havendo muito estardalhao 
por pouca coisa.
Farica riu, pois sabia que isso era muito tpico da tia. Pegou as luvas e 
uma bolsa pequena, e ficou esperando pelo pai, enquanto um lacaio ia 
buscar para ele as luvas e o chapu.
- Est muito elegante hoje, papai! - disse ela. - Gosto muito da flor que 
traz na lapela!
Sir Robert olhou para a prpria lapela e sorriu, satisfeito. De fato, era 
uma pequena orqudea, cultivada em sua prpria estufa. Sem que o pai o 
dissesse, Farica sabia que ele lamentava nunca mais poder ver a coleo 
de orqudeas do castelo, que tanto admirava.
Entraram na carruagem aberta, que j estava pronta  espera deles. No 
era um veculo to moderno e elegante quanto o do conde, mas tinha um bom 
molejo e era puxado por quatro cavalos perfeitamente harmoniosos entre 
si.
O jovem cavalario soltou a cabea dos cavalos, sentou-se na pequena 
boleia e partiu.
Era muito cedo. A temperatura era baixa, o Sol ainda estava plido, mas 
Farica previu que esquentaria, mais tarde, e fez votos para que Ivan no 
sentisse muito calor na longa jornada que o esperava.
A carruagem atravessou o porto e entrou numa alameda estreita, cercada 
de madressilvas, que os levaria ao vilarejo e que passava em frente ao 
Fox and Goose.
Quase sem sentir, Farica olhou em redor, procurando sinais de Riggs ou de 
seus aliados, que deviam estar ainda visitando todos os vilarejos das 
redondezas.
Quando passaram pelo lago dos patos e chegaram  praa da
113
vila, com a estalagem  esquerda, Farica soltou uma exclamao de horror e
susto.
Em frente  Fox and Goose havia um grande ajuntamento de pessoas. Na
verdade, parecia que toda a vila estava l, e algumas mulheres e crianas
ainda corriam pela grama para se reunir aos outros.
- O que aconteceu, papai? - perguntou Farica, com voz assustada.
- No tenho a menor ideia - replicou sir Robert -, mas vamos nos
aproximar e verificar.
Chegando perto, Farica soltou outro grito abafado de horror. Parados logo
 porta da estalagem, estava Abe, com Riggs de um lado e um homem de
aspecto rude do outro. Ambos seguravam um grosso basto em uma das mos e
com a outra mantinham Abe preso.  volta deles, gritando e protestando,
estava o povo da vila, que, evidentemente, viera para l diretamente do
trabalho.
Alguns dos homens carregavam forcados ou espadas, outros portavam foices
e machados, e at os cortadores de lenha vieram trazendo machados e
serras. Gritavam todos ao mesmo tempo, produzindo um rumor incoerente,
impossvel de ser compreendido.
No entanto, era bvio que protestavam furiosamente contra o tratamento 
que os dois homens estavam dando a Abe.
Ento, quando o pai fez os cavalos pararem, Farica viu o conde, de costas
para eles.
A simples viso de sua pessoa fez todos os nervos do corpo de Farica se 
retesarem. Instintivamente, aproximou-se do pai e colocou a mo no joelho 
dele.
- Que diabo est acontecendo aqui? - perguntou sir Robert, com voz 
irritada.
Nesse momento, a voz de Riggs sobressaiu entre os gritos da multido:
- Ele diz, senhor, que no sabe de nada!
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Riggs falava com o conde, e s por um momento o povo se quedou
silencioso, querendo ouvir a resposta
- Ento bata nele! - replicou o conde, falando rispidamente.
Foi ento, quando os dois homens levantaram o basto para bater no velho 
Abe e Farica soltou um grito de protesto, que um machado voou de trs da 
multido.
Ningum viu quem o atirou, o certo  que a ferramenta foi bater na cabea 
do conde, derrubou o seu chapu e foi se enterrar no seu pescoo.
Sem um murmrio, ele se inclinou para a frente e caiu ao solo.
De repente, a multido se descontrolou e, enquanto ele jazia no cho, com 
o cavalo pinoteando assustado ao seu lado, forcados e picaretas eram
atirados contra o seu corpo. Riggs, que estava prestes a atingir Abe,
teve a metade de sua perna cortada por uma foice, e seu cmplice foi
posto a nocaute com uma espada.
Por alguns instantes, tudo era um turbilho. O barulho que se ouvia era o 
de animais selvagens que houvessem sido libertados de seu cativeiro.
Farica estava imvel, gelada de medo, as mos instintivamente apertadas 
contra o peito, quando Ivan, montado em Pgaso, surgiu na esquina da 
estalagem.
com ele vinha Hagman, montado em Waterloo. Ela prendeu a respirao.
Ivan parou para ver o que estava acontecendo e a multido, diante de sua 
presena, ficou subitamente assustada e recuou.
Ele viu o corpo do conde pregado ao solo com forcados, o sangue 
escorrendo do machado que o atingira em primeiro lugar, encharcando o seu 
casaco.
Seus dois cmplices jaziam no cho tambm, um de cada lado de Abe, que 
no se movera. Riggs gemia, o sangue correndo de sua perna, e o outro 
homem estava imvel e silencioso.
115
Incapaz de se mexer ou mesmo de pensar, Ivan ficou fitando o espetculo.
Depois, desmontou de Pgaso, entregou as rdeas ao garoto mais prximo e 
movimentou-se no meio da multido, que estava muda, como se assustada com 
seus prprios atos.
Ele pulou em cima de uma pesada mesa de carvalho que ficava diante da 
estalagem. Farica notou que estava diferente, pois era a primeira vez que 
o via vestido como um cavalheiro, no auge da moda, e concluiu que Hagman 
devia ter trazido aquelas roupas do castelo.
Ivan ficou parado em cima da mesa por alguns momentos, encarando a 
multido. Depois disse:
- Meu povo, graas  misericrdia de Deus, depois de ter sido dado por 
morto na batalha de Waterloo, pude retornar para vocs e tomar o lugar 
que  meu de direito, agora que meu pai est morto, tornando-me o sexto 
conde de Lydbrooke! Houve um murmrio na multido e depois completo 
silncio, como se todos houvessem prendido a respirao. Ivan prosseguiu:
- Tenho certeza de que, embora tenha estado ausente por muitos anos, 
alguns de vocs vo se lembrar de mim, ainda que, como podem notar, tenha 
sido ferido em campo de batalha. Sei que muitas coisas mudaram na minha 
ausncia, desde que meu pai faleceu, que no so do meu agrado. Quero a 
ajuda de vocs, de todos vocs, para restaurar o castelo e a propriedade,
para que fiquem exatamente como eram no tempo de meu pai e de meu av.
Isto significa que estou pedindo a todos os que foram despedidos que
voltem imediatamente. Quero que os Prosper e os Bradshaw retomem as 
fazendas das quais cuidavam h tanto tempo. O mesmo se aplica a todos os 
que trabalhavam nos jardins e nas terras. Haver problemas,  claro que 
haver, mas eu estarei aqui e estou certo de que ns os poderemos 
resolver juntos. Tudo o que quero agora  agradecer a Deus por me trazer 
de volta e por me ajudar para que juntos
116
possamos fazer o castelo e a propriedade to bonitos como foram no
passado.
Quando Ivan acabou de falar, todos comearam a aclam-lo com forca e 
espontaneidade, acenando com suas ferramentas, chapus e lenos.
Ele havia falado com tal sinceridade que as lgrimas assomaram aos olhos 
de Farica. Muitas das mulheres da aldeia tambm choravam abertamente, 
enquanto os homens se aproximavam para apertar-lhe a mo e repetir-lhe 
muitas vezes o quanto estavam contentes com sua volta.
Foi ento que sir Robert, vendo as lgrimas nas faces de Farica, disse:
- Creio, minha querida, que devemos deixar o heri do dia entregue ao seu 
momento de triunfo. Haver muito tempo para nos congratularmos com ele, 
mais tarde.
Sem esperar a resposta dela, levantou as rdeas e partiu.
Farica ainda deu uma olhada para trs, para captar um ltimo flagrante de 
Ivan, que se inclinava de cima da mesa para apertar as mos das pessoas 
que ainda o aclamavam.
Eles visitaram a irm de sir Robert e descobriram, como esperavam, que 
ela havia se recuperado de seu ataque do corao e se surpreendia de que 
houvessem tido o trabalho de ir v-la. Ao voltar, Farica notou que o pai 
havia propositadamente evitado falar sobre o extraordinrio acontecimento 
que tinham presenciado na aldeia.
De certa forma, ela at tinha gostado da omisso dele, porque fora um
tremendo choque ver Riggs atacar Abe e depois ver o conde morto.
Sabia que era o que ele merecia. Mas a viso do machado enterrado no seu
pescoo e dos aldees atingindo-o enquanto ele jazia no solo lhe parecia 
um pesadelo.
Mas isso tornou a situao muito mais fcil para Ivan.
Agora ele no tinha mais necessidade de ir a Londres ou de juntar foras 
contra seu primo. E como todos queriam retornar
ao que consideravam normal, dentro de poucos dias o castelo seria o mesmo 
de sempre.
No entanto, quando o pai a levara embora da Fox and Goose sentia-se 
chorosa e meio desfalecida. Embora seu corao se rejubilasse porque tudo 
correra bem para Ivan, o acontecimento que presenciara era to horrvel 
que no desejava falar nele. nem sequer pensar.
S quando tomaram o caminho de casa, aproximadamente s duas horas,  que 
compreendeu que o pai fora muito diplomtico e que agira assim porque a 
amava. Eles possuam uma intimidade muito preciosa.
Mas, quando j estavam na estrada que os levaria para casa, sir Robert 
disse pausadamente:
- Creio, minha querida, que eu no me enganei quando pensei que estava 
escondendo algo de mim!
Farica lanou-lhe um rpido olhar e ele explicou:
- Notei que o novo conde estava montando Pgaso, e, como no posso 
acreditar que ele o roubou de meus estbulos, s posso concluir que voc 
lhe emprestou o seu cavalo.
Farica respirou fundo.
- O senhor tem razo, papai... eu emprestei o cavalo a ele, e tenho
muitas coisas a lhe contar.
- Por que no confiou em mim antes? - perguntou sir Robert, e ela notou 
que o pai estava sentido por seu segredo.
- A resposta  muito simples, papai. Ivan me avisou que, se lhe contasse 
o que havia descoberto, estaria assinando a sua sentena de morte.
Sir Robert parecia atnito, e ento Farica lhe revelou toda a estranha 
histria, que parecia fantstica demais para ser verdadeira. Ele a 
escutou atentamente, sem fazer nenhum comentrio, at que ela terminou.
Narrou tudo num tom de voz muito baixo, porque no queria que o 
cavalario escutasse, embora isso fosse difcil porque viajavam com muita 
velocidade e a capota aberta da carruagem se achava entre eles e o 
assento de trs, onde estava o criado.
118
Quando contou ao pai que Ivan estava a caminho de Londres para encontrar-
se com seu coronel e pedir ajuda militar, sir Robert disse com aprovao:
- Era uma atitude sensata. Mas, por outro lado, teria dado origem a muito 
falatrio e maledicncia, e Fergus Brooke talvez tivesse conseguido 
acrescentar mais um crime  sua j longa lista.
Havia muita raiva na voz do pai. Farica disse:
- Ele foi muito astuto, mas o senhor no tem ideia do carter desprezvel 
e mau que possua.
- Se eu tivesse usado os meus sentidos e o meu instinto adequadamente, 
teria adivinhado isso - respondeu o pai, bruscamente. Ele fez uma pausa e 
depois acrescentou: - Quero que me perdoe, minha filha, por ter estado 
to cego de ambio. S posso agradecer a Deus que, em sua misericrdia, 
salvou voc de se casar com um homem como aquele.
Sir Robert no a pressionou a dizer mais nada sobre o relacionamento dela 
com Ivan alm do que j contara.
J era tarde quando passaram pela vila. Tudo estava quieto, no havendo
nenhum sinal do tumulto que acontecera pela manh.
Farica imaginou que o corpo do conde houvesse sido transportado para o 
cemitrio da famlia, que ficava a cerca de um quilmetro do castelo. No 
entanto, no fez perguntas, e seu pai apressou-se, ansioso para voltar a 
casa.
"Amanh", pensava Farica, "preciso ir visitar o velho Abe e certificar-me 
de que nada de mal lhe aconteceu."
As janelas envidraadas da manso estavam muito bonitas e acolhedoras,
quando ela entrou. Notou, pela expresso do mordomo, que ele estava
ansioso para contar-lhes o ocorrido, mas foi depressa para o seu quarto.
Sua criada a esperava e, depois que ela tomou banho e colocou um vestido 
de noite, disse:
- Creio que a senhorita j soube das terrveis coisas que aconteceram na 
vila, esta manh!
119
- Sim, sei tudo a respeito, obrigada, Emily, mas no desejo falar sobre
isso agora.
Desceu correndo, esperando encontrar o pai aguardando-a na sala de 
jantar. Para sua surpresa, havia um homem de p ao lado da lareira. 
Quando ele se virou, seu rosto se encheu de pura alegria.
Era Ivan!
Sem pensar e sem fazer perguntas, ela simplesmente correu para os braos 
dele.
Ivan beijou-a com suavidade e depois disse:
- Minha doura! Minha querida! Devo tudo a voc e vim aqui para saber se 
posso jantar com a minha mais nova e mais preciosa vizinha.
- Voc est bem? No haver mais... problemas?
Ela chorava de emoo e felicidade. Ivan beijou-lhe as lgrimas e depois 
seus lbios encontraram os dela mais uma vez. No havia necessidade de 
nenhuma explicao entre eles. Tudo estava claro como a pureza do amor 
que os unia, e Ivan declarou:
- Eu a amo! Meu Deus, como eu a amo! Vim pedir permisso a seu pai para 
casar-me com voc imediatamente. No poderei fazer tudo o que tenho a 
fazer sem voc a meu lado.
Era impossvel para Farica responder, porque os lbios dele a mantinham 
cativa e eles s se separaram quando a porta se abriu e sir Robert entrou 
na sala.
Os aldees, do lado de fora da igreja, fizeram chover ptalas de flores 
de todos os tipos sobre o casal de noivos, assim que eles saram da 
igreja.
Os diamantes da tiara de Farica no brilhavam tanto quanto seus olhos.
Os noivos pararam por um momento para acariciar Pgaso, que estava 
esperando por eles com um colar de flores em torno do pescoo. Ivan deu 
um tapinha na cabea de Pgaso, antes de ajudar
120
Farica a entrar na carruagem, tambm enfeitada de flores. Houve nova 
chuva de ptalas, o que fez o cavalo menear a cabea e pinotear para 
mostrar seu desagrado com tantas manifestaes.
Ivan havia dito ao futuro sogro:
- Compreendo, sir Robert, que o senhor queira que Farica comemore nosso 
casamento em sua prpria casa, mas peo-lhe
que seja generoso e permita que as festividades tenham lugar no Rasteio.
Sir Robert demonstrara surpresa, mas Ivan explicara: - Meu povo sofreu
mais do que consigo expressar em palaBras, durante os meses em que Fergus
usurpou o meu lugar e tomou posse do castelo.  difcil acreditar que
possa existir uma pessoa to cruel a ponto de fazer o que ele fez.
Percebendo que sir Robert entendia o que ele estava dizendo, acrescentou:
- Eles no pouparam comentrios sobre seus sofrimentos e temores, e eu 
no estou somente pensando neles, mas em Farica e em mim mesmo, quando 
desejo oferecer-lhes algo mais agradvel para assunto de suas conversas.
Sir Robert riu.
- E esse acontecimento seria o seu casamento!
- Todos ficaro encantados, e isso os far esquecer suas desgraas mais 
depressa do que qualquer outra coisa.
Sir Robert apoiou as mos nos ombros de Ivan.
- Voc  um jovem muito sbio, e  claro que entendo o seu pedido. Mas 
espero que minha gente, que conhece Farica h tantos anos, tambm seja 
convidada para a festa.
- Sem dvida - assegurou Ivan. - Mandei construir duas enormes marquises 
nas alamedas, e os presentes, embora no sejam muitos, sero exibidos no 
salo de baile do castelo. Penso tambm que devemos incluir um espetculo
de fogos de artifcio e oferecer-lhes barris de cerveja e canecas de
cidra. E, naturalmente, um boi inteiro assado, como reza a tradio!
121
Os olhos dele brilhavam de animao, e sir Robert no viu motivo para no 
concordar com ele.
- Certamente, ser um acontecimento que o povo no esquecer.
- E  exatamente isso que desejo - declarou Ivan. Para Farica era como se 
todos os contos de fadas que conhecia
estivessem se tornando realidade. Estava muito feliz e cada vez que Ivan
a beijava, ou mesmo a fitava, ela o amava ainda mais. Sabia que era
correspondida.
- Sabe onde vamos passar nossa lua-de-mel? - perguntou ele, brincando.
- Onde?
- Na casa de bonecas.
- Creio que vai ficar um pouco apertado - protestou Farica. - Por isso, 
fale logo para onde iremos.
- Para lugar nenhum!
Farica olhou-o admirada, com um ar interrogativo, e ele se apressou a 
explicar:
- Acho que ns passamos por muitas experincias traumatizantes. 
Emocionalmente, ficamos muito abalados. Estarmos em casa  fator de 
segurana e bem-estar. Creio que  disso que precisamos, no momento. - 
Achando que ela parecia desapontada, acrescentou: - Mas, se voc quiser, 
podemos ir a Londres ou para a casa que eu possuo em Newmarket. Pensei 
que seria maravilhoso ficarmos em casa e comearmos a fazer as milhares 
de coisas que temos que fazer no castelo.
- Na verdade,  s isso o que quero - declarou Farica, emocionada.
- Fala srio?
-  claro que sim! A nica coisa que importa realmente  estarmos juntos.
- No lhe contarei sobre meus planos. Manterei segredo at o dia do nosso 
casamento - disse Ivan com doura.
Sorrindo um para o outro, selaram com um longo beijo aquele instante 
solene.
122
Agora, dirigindo-se para o castelo, sob um sol brilhante e segurando 
firmemente a mo de Ivan, Farica pensava que o casamento deles, ocorrido 
quatro dias aps Ivan ter recuperado o lugar que lhe pertencia, fora tudo 
aquilo que desejara.
Como estavam de luto, ainda que fosse por um homem que no merecia tal 
homenagem pela sua maldade, nenhuma pessoa de fora, nem mesmo parenta, 
foi convidada para a cerimnia.
A igreja estava repleta de antigos criados do castelo e da manso. L 
tambm se encontravam os fazendeiros, com seus auxiliares e respectivas 
esposas.
Como no houve tempo de mandar fazer um traje de noiva, Farica usou o 
vestido que pertencera  sua me e que havia sido guardado com muito 
cuidado, como uma das relquias da famlia.
Um vu de renda que pertencia  famlia Brooke h muitas geraes cobria-
lhe o rosto e uma tiara que a me do conde usara no casamento adornava-
lhe a fronte. No colo trazia um belssimo colar de diamantes.
- Voc est parecendo uma princesa de contos de fadas
- disse Ivan, quando se afastaram da multido.
- Quero estar o mais linda possvel para voc.
- Voc  sempre linda! Quando a vi pela primeira vez, nem acreditava que 
fosse de verdade, e sim, uma miragem ou uma ninfa encantada da floresta. 
Creio que nunca existiu uma condessa de Lydbrooke to bela quanto voc. 
Alis, pretendo mandar pintar vrios retratos seus e espalh-los por toda 
a casa.
Farica riu, mas protestou:
- As pessoas vo me achar muito convencida, se eu permitir que voc faa 
tal coisa. Tudo o que quero  que me prometa que s ter olhos para mim e 
que no vai sequer olhar para outra mulher.
- Para mim voc  a nica mulher do mundo - disse Ivan, em tom 
apaixonado, que denunciava todo o desejo que sentia por ela.
123
Havia mais gente esperando por eles no castelo. Muitos tinham vindo 
correndo atrs da carruagem para chegar l o mais rpido possvel.
Os dois entraram logo em casa e, como no havia uma longa fila de pessoas 
para cumpriment-los, foram admirar os presentes de casamento expostos no 
salo de baile.
Depois foram para as marquises cortar o bolo e Ivan fez um discurso de 
agradecimento.
Isso tudo levou tempo, at que finalmente sir Robert se despediu e
voltou para a manso. As lanternas foram acesas e o ltimo fogo de
artifcio crepitou sobre o lago, iluminando os rostinhos excitados das 
crianas da vila que viam o espetculo pela primeira vez. Estavam todos 
muito contentes.
- O que vamos fazer agora? - Farica perguntou a Ivan.
- Primeiro temos que comer alguma coisa, mas antes voc vai ver uma de 
minhas surpresas.
Farica imaginava que eles ocupariam o grande quarto principal, onde todos 
os condes de Lydbrooke haviam dormido, e que o quarto dela fosse o 
aposento contguo, que no fora modificado desde a morte da me de Ivan.
Mas ele a conduziu para uma outra parte do castelo, at um quarto que ela 
no conhecia. Quando l entraram, Farica sentiu uma adorvel fragrncia 
de flores.
Olhou em volta e viu que o aposento estava todo decorado com orqudeas. 
Farica soltou uma exclamao de admirao e Ivan explicou:
- Mandei redecorar os cmodos que seriam nossos por tradio e, por 
enquanto, minha querida, acho que voc ser feliz, aqui. Estes aposentos 
eu os ocupava quando garoto, antes de ir para a guerra, e, pelo que os 
criados me contaram, no foram utilizados desde ento.
Farica notou que era uma forma sutil de ele lhe dizer que no queria que 
ela dormisse num cmodo utilizado por Fergus. Quando os quartos 
principais estivessem prontos, no restaria nenhum vestgio do primo.
124
Abraando-a, Ivan falou:
- Venha, minha preciosa, e veja onde iremos passar esta noite.
Abriu a porta do quarto contguo e ela pde ver que deviam ter trabalhado 
com uma rapidez incrvel para transform-lo num aposento digno de uma 
deusa.
Havia uma cama enorme, com dossel de onde caam cortinas da cor exata dos 
olhos dela.
O quarto estava repleto de flores: orqudeas, lilases e rosas brancas, 
pendendo de grinaldas das paredes e enchendo a lareira, que, por ser 
vero, estava desativada.
De cada lado da cama pendiam flores, criando um leito digno de Afrodite.
-  encantador! Maravilhoso! - exclamou Farica. - Obrigada, querido, por 
pensar em tudo isso.
Ela ergueu o rosto para beij-lo e Ivan lhe retribuiu o beijo com
delicadeza, conduzindo-a de volta  sala de estar.
Os criados j estavam servindo a ceia e, quando sentaram  mesa, Ivan
levantou o clice de champanhe, brindando:
-  minha esposa, que me guiou, ajudou e inspirou desde o momento em que
a encontrei!
Farica fitou o marido e respondeu num sussurro:
- Para o homem mais maravilhoso do mundo!
Essas palavras excitaram Ivan, mas os criados j estavam trazendo a 
comida, em bandejas de prata, e eles precisavam se comportar com 
discrio at que a ceia terminasse.
Ao trmino do jantar, os criados imediatamente retiraram os pratos, 
deixando-os a ss.
Quando a porta se fechou, Ivan passou os braos em torno de Farica e 
levou-a at a janela.
Os aposentos que ocupavam eram silenciosos, pois davam para os fundos do 
castelo. As luzes das marquises no interferiam na beleza calma do 
jardim.
Havia uma fonte atirando sua gua iridescente em direo
125
s janelas e o perfume das madressilvas e rosas silvestres impregnavam
todo o ambiente.
- Sonhei com esse ambiente durante todos os anos em que estive lutando, 
primeiro na Pennsula, depois na Frana disse Ivan. - Imaginava-me de 
volta para c, olhando para fora como estamos fazendo agora, antes de ir 
para a cama.
Carinhosa, Farica encostou o rosto no dele, que continuou:
- Nos meus sonhos havia sempre algum comigo, nunca estava s. Agora sei 
que esse algum era voc.
- Voc acredita... realmente que ns nos encontramos antes. em outras 
vidas? - perguntou Farica.
-  claro que sim! - respondeu ele. - E estivemos caminhando na mesma 
direo, talvez h milhares de anos. Agora que encontramos o que vnhamos 
procurando, ficaremos juntos por toda a eternidade.
-  nisso que eu quero acreditar.
-  nisso que eu acredito! - exclamou Ivan. - Ningum, a no ser uma 
pessoa to maravilhosa como voc, teria me amado sendo eu um homem
acossado, sem posses, s com meu cavalo, minha pistola e uns poucos
tostes.
Farica riu, o que fez desaparecer a solenidade das palavras de Ivan.
- Mas voc  ainda muito orgulhoso - ela falou suavemente. - To 
orgulhoso que no queria aceitar nada de mim, nem mesmo a comida que 
levei para a casa de bonecas.
Ivan suspirou.
- Nunca em minha vida imaginei casar-me com uma mulher por causa do 
dinheiro dela ou ter uma esposa que fosse mais rica do que eu.
- Isso tem importncia?
- Eu ia lhe dizer que uma das coisas que voc me ensinou  que o dinheiro 
no tem nenhuma importncia, diante do amor.
- Fala srio? Promete que no vai... se ressentir do fato de eu ter uma 
grande fortuna?
- Pertence a ns dois, minha querida, assim como o castelo
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 seu, meu povo  o seu povo. Partilharemos tudo o que temos, assim ser
impossvel saber onde termina a sua parte e comea a minha.
Farica ficou satisfeita.
- Oh, Ivan, querido,  assim que eu queria que voc se sentisse, e tinha
tanto medo de que ficasse humilhado.
Ele lhe interrompeu as palavras com um beijo. O corao de Farica comeou
a bater violentamente e ele declarou:
- Existe uma maneira, minha adorvel esposa, de provar de uma vez por 
todas que no existem possesses minhas
ou suas.
- C. como?
Os braos fortes a apertaram e ele a carregou para o quarto, onde tudo
tinha sido preparado para eles.
A cama estava arrumada e havia somente dois castiais acesos.
Ivan tirou-lhe os grampos do cabelo, que caiu como uma cascata sobre os 
ombros dela. E veio  sua mente o que havia pensado na primeira vez em 
que se encontraram: os cabelos de Farica tinham a cor do cobre misturada 
com a dos raios dourados do sol.
Lentamente, Ivan foi lhe desabotoando o vestido, que caiu no cho com um 
movimento suave como o do vento nas rvores.
Farica estremeceu e escondeu o rosto no peito dele, encabulada.
Ivan levantou-a nos braos e, pousando-a sobre os travesseiros, deitou-se 
ao lado dela.
O corao de Farica disparou, com a proximidade dele. O amor que sentia a 
dominava, e ela se viu transportada com a rapidez e a fora de uma onda 
forte, sem saber para onde era levada.
- Eu... amo voc - disse, os lbios muito junto dos dele.
- Eu tambm a amo, minha preciosa - Ivan respondeu.
- Este  o momento de provar-lhe que no somos mais dois
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indivduos, mas uma s pessoa. E mais ainda, minha maravilhosa e perfeita 
mulher, voc  completamente minha e eu nunca a deixarei.
Seus lbios se encontraram num beijo selvagem, arrebatador. Depois o 
corpo dela todo foi percorrido pelos lbios amorosos e cheios de paixo 
de Ivan.
Seguiam juntos pelo mesmo caminho, sabendo que, no final, encontrariam o 
mesmo xtase.
Farica nunca conhecera tanta emoo, tal excitamento, que a fazia sentir-
se selvagem como o vento, queimando como o calor do sol.
- Eu o amo, Ivan! - gritou. - Eu o amo. Por favor, me ame para que eu 
possa pertencer a voc completamente!
- Voc  minha, minha! Oh, adorada esposa, nada vai nos separar.
E, quando Ivan a possuiu, Farica entendeu por que ele dissera que agora 
eram uma s pessoa.
Havia o perfume das flores, a msica dos anjos e as estrelas do cu para 
dizer-lhes que eles tinham um s corao, uma s alma e que seu amor era 
iluminado por uma luz divina.
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Fim
